Psicanalista.
Praticante do CLAC.
A escolha da
droga envolve causa e igualmente consentimento. O paciente ao poder falar além do prazer que a droga lhe proporciona, faz
surgir os acontecimentos que precedem o uso das drogas. A clínica da singularidade
implica em ouvir cada paciente para além do rótulo que o segrega. Há que relacionar
a causa com o uso. Ouvir os momentos que o fizeram procurar este objeto de
gozo. Passar do uso ao abuso, remete ao assunto de nossa clínica do caso
a caso, ou seja, nosso trabalho analítico se ocupa daquilo que é particular a
cada sujeito. O analista deverá interrogar o que ele é, o que mais, além de
toxicômano, alcoolista, deprimido, dependente, e outros rótulos mais. Ele
deverá se desapropriar destes rótulos e falar além do prazer que a droga lhe
proporciona.
O analista
ficará atento ao valor que é dado à droga pelo sujeito e aos acontecimentos que
precedem o uso das drogas. Acontecimentos que tem valor de angustia e o qual o
sujeito tenta evitar com a droga, com o álcool ou qualquer objeto com valor de
droga. Fazer relação com a causa implica numa questão totalmente particular que
se articula ao psiquismo de cada um. A partir do momento de suas articulações
com a própria história, o sujeito começa a mudar sua maneira de se expressar e
de se posicionar diante dos seus atos. O sintoma fala, de como o inconsciente
do sujeito lê o desejo do Outro. O gozo do toxicômano é sem enigma. Ele sabe do
que goza. É uma operação que se separa do outro sexo.Procura seu gozo por um
caminho que não é sexual, mas está orientado ao próprio corpo. E’ uma escolha
contra a castração, contra a divisão do sujeito, e contra o inconsciente. O que
o tóxico, em algum caso procura é evitar passar pela prova do desejo sexual.
Intoxicar esvazia toda significação. Falar é restituir algo da significação.
Por isso a satisfação do toxicômano requer o silêncio. Significação é
significação do falo. A única chance clínica nestes casos é fazer falar – a
intoxicação requer não falar. Daniel Siliti[i], nos diz que, o
social demanda uma harmonia do sujeito com o meio em que vive:
reinserção social plena, familiar, com o trabalho e educativa. Para estas
demandas temos os centros de reabilitação. Mostra que não é esta a posição do
analista. Os pedidos de análise mais frequentes vem através do sintoma que é
colocado como o que não anda, o que descentra o sujeito, o leva a perguntar por
seu sentido e o leva a consultar os analistas.
O toxicômano é
um sintoma, ele mesmo, é presença do mal estar, por sua marca (huella) se entreve o mal estar na
cultura. Poderíamos afirmar que o consumo de drogas é um sintoma. Mas
não é o consumo o que leva alguém a consulta e sim o fracasso que conseguiu
através do consumo. Por outro lado, o sintoma é algo que faz enigma, que faz o
sujeito sofrer. Seu encontro com o analista, se faz na espera de aliviar este
sofrimento. O sintoma recolhe (encierra)
um gozo desconhecido para o sujeito.A droga como objeto consegue obturar a
falta a ser.Que estatuto dar a este objeto? O sujeito procura por seu
intermédio uma cota de mais-de-gozar. O objeto a define o sujeito em sua
divisão. Como situar a droga na série dos objetos- peito, fezes, olhar e voz. O
nada? O objeto a está nesta perspectiva já que se constitui como tal a
partir da operação de extração de gozo fora do corpo pela incidência do
significante. Quer dizer que como objeto implica a operação da castração. Como
objeto se recorta em sua relação com o sujeito no marco do fantasma. “Situar um
gozo fora da premissa fálica é correlativo a situá-lo fora do fantasma”(Eric
Laurent). A droga enquanto objeto que procura um gozo, obtura o lugar do
analista, lugar de objeto, objeto causa do desejo. A função do tóxico se situa
no impasse que produz em relação ao desejo do Outro.
A droga opera no
sentido da recuperação de gozo eludindo o semblante fálico, que implica a
castração, quer dizer, a falta no Outro. O que o tóxico procura é uma solução
para o problema sexual, uma solução que mantém uma relação de exclusão entre o
sujeito e a droga. Com a positividade do gozo na experiência vazia da droga,
tratamos o vazio central do sujeito, quer dizer esse incurável, que com a droga
tenta ser tamponado. A questão do sujeito é anterior a droga e a droga é uma
resposta. Para que exista chance de intervenção analítica é necessário que a
droga já não aporte completamente essa solução e que a questão do desejo se
infiltra no vazio da experiência.
