"A clínica do singular" por Eliana Bentes Castro


                                                         
Psicanalista. Praticante do CLAC.

A escolha da droga envolve causa e igualmente consentimento. O paciente ao poder falar além do prazer que a droga lhe proporciona, faz surgir os acontecimentos que precedem o uso das drogas. A clínica da singularidade implica em ouvir cada paciente para além do rótulo que o segrega. Há que relacionar a causa com o uso. Ouvir os momentos que o fizeram procurar este objeto de gozo. Passar do uso ao abuso, remete ao assunto de nossa clínica do caso a caso, ou seja, nosso trabalho analítico se ocupa daquilo que é particular a cada sujeito. O analista deverá interrogar o que ele é, o que mais, além de toxicômano, alcoolista, deprimido, dependente, e outros rótulos mais. Ele deverá se desapropriar destes rótulos e falar além do prazer que a droga lhe proporciona.
O analista ficará atento ao valor que é dado à droga pelo sujeito e aos acontecimentos que precedem o uso das drogas. Acontecimentos que tem valor de angustia e o qual o sujeito tenta evitar com a droga, com o álcool ou qualquer objeto com valor de droga. Fazer relação com a causa implica numa questão totalmente particular que se articula ao psiquismo de cada um. A partir do momento de suas articulações com a própria história, o sujeito começa a mudar sua maneira de se expressar e de se posicionar diante dos seus atos. O sintoma fala, de como o inconsciente do sujeito lê o desejo do Outro. O gozo do toxicômano é sem enigma. Ele sabe do que goza. É uma operação que se separa do outro sexo.Procura seu gozo por um caminho que não é sexual, mas está orientado ao próprio corpo. E’ uma escolha contra a castração, contra a divisão do sujeito, e contra o inconsciente. O que o tóxico, em algum caso procura é evitar passar pela prova do desejo sexual. Intoxicar esvazia toda significação. Falar é restituir algo da significação. Por isso a satisfação do toxicômano requer o silêncio. Significação é significação do falo. A única chance clínica nestes casos é fazer falar – a intoxicação requer não falar. Daniel Siliti[i],  nos diz que, o  social demanda uma harmonia do sujeito com o meio em que vive: reinserção social plena, familiar, com o trabalho e educativa. Para estas demandas temos os centros de reabilitação. Mostra que não é esta a posição do analista. Os pedidos de análise mais frequentes vem através do sintoma que é colocado como o que não anda, o que descentra o sujeito, o leva a perguntar por seu sentido e o leva a consultar os analistas.
O toxicômano é um sintoma, ele mesmo, é presença do mal estar, por sua marca (huella) se entreve o mal estar na cultura. Poderíamos afirmar que o consumo de drogas é um sintoma. Mas não é o consumo o que leva alguém a consulta e sim o fracasso que conseguiu através do consumo. Por outro lado, o sintoma é algo que faz enigma, que faz o sujeito sofrer. Seu encontro com o analista, se faz na espera de aliviar este sofrimento. O sintoma recolhe (encierra) um gozo desconhecido para o sujeito.A droga como objeto consegue obturar a falta a ser.Que estatuto dar a este objeto? O sujeito procura por seu intermédio uma cota de mais-de-gozar. O objeto a define o sujeito em sua divisão. Como situar a droga na série dos objetos- peito, fezes, olhar e voz. O nada? O objeto a está nesta perspectiva já que se constitui como tal a partir da operação de extração de gozo fora do corpo pela incidência do significante. Quer dizer que como objeto implica a operação da castração. Como objeto se recorta em sua relação com o sujeito no marco do fantasma. “Situar um gozo fora da premissa fálica é correlativo a situá-lo fora do fantasma”(Eric Laurent). A droga enquanto objeto que procura um gozo, obtura o lugar do analista, lugar de objeto, objeto causa do desejo. A função do tóxico se situa no impasse que produz em relação ao desejo do Outro.
A droga opera no sentido da recuperação de gozo eludindo o semblante fálico, que implica a castração, quer dizer, a falta no Outro. O que o tóxico procura é uma solução para o problema sexual, uma solução que mantém uma relação de exclusão entre o sujeito e a droga. Com a positividade do gozo na experiência vazia da droga, tratamos o vazio central do sujeito, quer dizer esse incurável, que com a droga tenta ser tamponado. A questão do sujeito é anterior a droga e a droga é uma resposta. Para que exista chance de intervenção analítica é necessário que a droga já não aporte completamente essa solução e que a questão do desejo se infiltra no vazio da experiência.




[i] Daniel Siliti- droga: objeto?”Mais além das drogas -Sujeito, gozo e modernidade