Este trabalho é produto da minha
participação no Cartel inscrito na Lista dos cartéis da EBP- Escola Brasileira
de Psicanálise na rubrica “Sinthoma e Semblante”, iniciado em maio de 2010 e
finalizado em maio de 2012, composto por mim, Christiane Martino, Jana Cunha,
José Alberto Ferreira, tendo Maria Lucia Petraglia como Mais-Um.
Este trabalho tem por objetivo apresentar
algumas reflexões sobre o “amor como parceiro sintoma”. A minha pesquisa partiu
da seguinte pergunta: Pode o amor vir a realizar uma parceria que supra a “não
relação sexual”, que nos fala Lacan?
No seu Seminário 4, A Relação de
Objeto, no capítulo que trata da “Dialética da Frustração”, Lacan afirma
não existir harmonia preestabelecida entre o objeto e a satisfação do sujeito.
Desse modo, os objetos que no início da vida eram “objetos de satisfação”
passam a ser “objetos de dom”, objetos agora com valor, potencialmente
determinados pela presença-ausência do Outro. A partir dessa dialética se pode
pensar o amor na clínica distinguindo duas demandas: a demanda de um objeto, objeto
da necessidade: tenho fome, tenho sede, e a outra demanda, a que depois desse
seminário Lacan chamará de demanda de amor, relacionada não a objetos mas a
signos do Outro. Sabemos que este Outro dá o que não tem, o seu ser, seu saber.
Este outro do amor não é o semelhante, é o Outro do significante e será na
conjunção das duas demandas que se encontrará o desejo. Logo o objeto do desejo
está entre algo e nada, objeto que se produz no percurso da pulsão, entre a
fonte e a meta, onde a satisfação acontece. A este objeto Lacan chamou de
objeto “a”.
Enquanto o amor depende dos signos do
Outro, o desejo está enganchado, estimulado por algo que está desapegado do
Outro, que se torna causa do desejo do sujeito. Como Lacan lembra nos Escritos,
“o desejo não é nem o apetite de satisfação nem a demanda de amor, mas a
diferença que resulta da subtração de um pelo outro” (1), a saber, quando da
demanda de amor subtraímos a satisfação resta o desejo e então aparece a
divisão do sujeito. Penso que essa fenda, essa divisão torna os parceiros não
objetos de amor ou sujeitos da necessidade e sim causa de desejo, o que se faz
presente na vida sexual do sujeito. Disso se pode concluir que o objeto do amor
não é o objeto da pulsão, o objeto de amor está na dialética do desejo suprindo
a ausência da relação sexual. De tal modo que Lacan nos diz no Seminário 20:
mais ainda... que é através da sublimação que o gozo torna-se dom, dom de
poder provocar gozo num outro. Em seu curso Parceiro-sintoma,
Jacques-Alain Miller ao se referir a afirmação de Lacan de que o gozo fálico se
refere ao corpo, não ao Outro, vai concluir que “se há um gozo que se refere ao
Outro é o gozo sintomático” (2). Questão esta também trabalhada no cartel,
especialmente as conseqüências do gozo no corpo, nos sintomas atuais, segundo a
fórmula atual da pesquisa na orientação lacaniana de que “o corpo fala”, se
podemos dizer o gozo fala no corpo.
Em seu texto “a teoria do parceiro”,
Miller nos diz que se há sintoma é porque não há saber sobre a relação sexual.
O sintoma é da ordem do que “não cessa de se escrever” do que não está escrito,
o “impossível”, que é a relação sexual. Já a experiência analítica é da ordem
do contingente, do que “cessa de não se escrever”. Ela se dá sobre duas formas
essenciais: o encontro com o gozo como limite e o encontro com o Outro que
podemos nomear com o termo amor. Considero que é a partir daí que Lacan pode
definir o amor como o encontro no parceiro, dos sintomas, dos afetos, de tudo o
que nele e em cada um marca o rastro de seu exílio da relação sexual (3).
No seu Seminário: mais ainda... Lacan fala do gozo como o que se
elabora a partir de um semblante, e do amor como o que se dirige ao semblante.
Considero que o sujeito, na análise, ao se queixar do sintoma sempre demanda o
reconhecimento de um desejo, o que aponta para a sua existência enquanto ser
desejante. O gozo do sintoma, por sua vez, encobre sempre um desejo.
Ao concluir com Lacan que a relação
sexual não existe, a clínica psicanalítica deve se orientar pela contingência
do encontro, isto é, pelo termo que Miller introduziu como “parceiro-sintoma”.
Aqui o parceiro não é o Outro, nem como pessoa nem como lugar da verdade. O
parceiro é algo do próprio sujeito, sua imagem, seu objeto a, seu mais-de-gozar,
e, fundamentalmente, o sintoma.
Referências.
(1) LACAN, J. Escritos, A
significação do falo. P. 698. Zahar editor, RJ, 1998
(2) MILLER, J-A. O parceiro-Sintoma.
Cap. XI, p. 236. Paidós, Buenos Aires, 2008
(3) EBP. Os Circuitos do Desejo na
Vida e na Análise, in: A teoria do parceiro, J-A. Miller, p.156
Bibliografia.
LACAN, J. Seminário 4, A relação de
objeto. Zahar editor, Rio de Janeiro, 1995.
LACAN, J. Seminário 20, Mais ainda...
Zahar editor, Rio de Janeiro, 1995.
MILLER, J-A. La
lógica de La cura, in Donc. Paidós, Buenos aires, 2011.
ZBRUN, M. Lacan e o campo do gozo. Revinter,
Rio de Janeiro, 1999.
