Os “Efeitos terapêuticos rápidos” e a “teoria dos ciclos”





A Psicanálise de Orientação Lacaniana vem apostando nos "efeitos terapêuticos rápidos". Podemos obter estes efeitos terapêuticos rápidos a partir do que Jacques-Alain Miller nomeou de “ciclo” em análise, e que chamamos de “tratamento-de-curta-duração” para diferenciá-los daqueles chamados “pedaços (tranches) de análise”. 
O conceito de “ciclo” parece mais apropriado ao conceito de uma psicanálise como terminável, uma psicanálise com fim. Ao partimos do sintoma como o envoltório formal da pulsão, como o que muda da pulsão, é possível estabelecer na prática analítica um “tratamento-de-curta-duração”. O significante do “ponto de basta” (point de capiton), tal como foi estabelecido por Lacan possibilitará ao sujeito produzir um novo ponto de enlaçamento dos três registros no psiquismo. 

A diferença das terapias breves para o tratamento-de-curta-duração se propõe à realização de um ciclo.[1] Para isso, é necessário levar em conta a conceitualização de Lacan sobre o sintoma a partir da teoria freudiana. Lacan se concentra no que tem de real no sintoma - a saber, aquilo que chamamos de "real do sintoma".  Espera-se, portanto, que no ciclo em análise ocorra a produção de efeitos terapêuticos que supõem uma subjetivação frente ao sintoma, e que implique na perda de gozo. A partir desta noção, a psicanálise nos ensina que os efeitos de tal subjetivação são sempre “a posteriori”. Em consequência disso, a intervenção do analista se dirige à produção de uma mudança subjetiva, que virá a assinalar a terminação de um ciclo.

Na Conversação Clínica sobre os "Efeitos Terapêuticos Rápidos" realizado em Barcelona[2], Jacques-Alain Miller sugere uma missão ao psicanalista inserido nas instituições recentemente abertas em Paris, assim como, em outros lugares. Sua recomendação é para que o psicanalista se coloque a fim de "levar o sujeito até seu primeiro ciclo”Miller se inspira em Spinoza para falar de um primeiro axioma, que se apresenta da seguinte forma: "há sempre um primeiro ciclo", sendo seu primeiro escólio: "o primeiro ciclo pode ser breve". A partir daí temos que, “o ciclo é perfeitamente calculável". Logo haverá um segundo escólio: "o ciclo é sempre calculável, porém, après-coup” (a posteriori). Miller pôde concluir que há necessariamente um primeiro ciclo, sendo próprio de uma razão psicanalítica pensar assim. Porém, esse primeiro ciclo não é realmente um tempo necessário. Ao contrário, se trata de um tempo contingente, na medida em que ele é calculável apenas depois, "après-coup". [3]

O Centro CLAC se insere na experiência desse primeiro ciclo e se interroga em que medida é possível haver um efeito terapêutico rápido no decorrer desse ciclo, levando em conta as premissas do tratamento gratuito e de tempo limitado.  A nossa pesquisa tenta verificar nos casos clínicos, que um primeiro ciclo foi possível de ser estabelecido e que as intervenções do analista contribuíram, evidentemente, para isso.


Equipe CLAC
Centro Lacaniano de Atendimento e Consultas.






[1] Miller, J. - A. (2004) Conversação em Barcelona sobre os Efeitos terapêuticos rápidos. Paidós, Buenos Aires, 2004.
[2] Conversação clinica realizada no Instituto do Campo Freudiano, Seção Clínica de Barcelona. em fevereiro de 2002.
[3] Miller, J. - A. (2005) “Conversação Clínica de Barcelona”. Paidós, Buenos Aires, pp.105-109.