O
TREM DA VIDA: um comentário - Vencedor do Prêmio da crítica Internacional no
Festival de cinema de Veneza
Por Lenita Bentes – psicanalista / praticante do CLAC.
Em
1941 um vilarejo na Europa ocidental recebe o alerta de que os nazistas estão
chegando para deportar todos os judeus. Quem dá a notícia é Schlomo, o bobo da
aldeia, que é o único a sugerir uma saída, portanto, nem tão bobo.
Este
filme trata de uma página dramática da humanidade: O Holocausto, substantivo ao
qual a tragédia judaica sempre é referida tem, ao menos, quatro acepções.
Sua
primeira acepção é: sacrifício praticado pelos hebreus, em que a vítima era
inteiramente queimada.
A
segunda é: sacrifício expiação.
A
terceira: ato de abnegar-se, renuncia, abnegação.
A
quarta, massacre de judeus e de outras minorias, efetuados nos campos de concentração
alemães durante a segunda guerra mundial. É também conhecido como Shoá. Foi o
genocídio ou o assassinato em massa de seis milhões de judeus, o maior do
século XX.
No
entanto, não podemos perder de vista que houveram e haverão ainda muitos holocaustos:
o dos negros, dos pobres, dos miseráveis, dos excluídos, dos LGBT, dos índios,
dos escravos, um sem fim de segregações para as quais nos alertava Lacan ao
dizer que o problema no futuro não seria mais o racismo mas a segregação. Por
que? Lacan não se referia a raça mas ao gozo pertinente a cada grupo. Não se
trata apenas de raça mas da forma de gozar de um determinado grupo.
O gozo é esse a mais de prazer obscuro muitas
vezes, outras vezes, nem tanto assim.
Vemos
a humanidade em constante errância, em peregrinação fugindo da guerra, da fome,
da morte e do horror de viver sem razões, sem um mínimo de dignidade e de
cotidianidade para acolher os corpos, os laços sociais e os projetos de cada um.
O nazismo não tinha como objetivo único apenas o judeu mas também, os negros,
os índios, os asiáticos, os ciganos, os homossexuais, enfim tudo e todos os que
tinham uma forma de gozar diferente do ideal da arianidade, leia-se, de uma
forma de gozar segundo o ideal da raça pura, alemães com alemães ao estilo
Schreberiano, podemos dizer, um quase ter filhos com Deus. Tudo o que não correspondesse a tal ideal, deveria
ser exterminado, ou seja, o diferente e as diferenças.
Mas,
entretanto, este filme traz de forma clara e exuberante, também, o que há no humano
de mais precioso, a capacidade de criar, de valer-se da criação para contornar
o real. Esta foi a saída encarnada por Schlomo.
Construir um trem e não esperar pelo trem dos nazistas. A criação como
saída frente ao real da morte.
No
filme, os próprios habitantes irão forjar um trem nazista, interpretando uns,
os alemães, outros os maquinistas, outros os judeus deportados e outros os
ciganos.
Antes da chegada dos nazistas, o trem parte
com destino a terra prometida, a eterna e sempre inatingível Palestina! Tudo
segue o planejado, exceto pelo fato de as encenações começam a ficar cada vez
mais realistas. Os nazistas se tornam mais autoritários, ou seja, mais
nazistas, os deportados começam a tramar uma rebelião contra seus falsos
algozes, outros que se declaram comunistas, querendo lutar contra os fascistas,
os burgueses e os imperialistas, etc. A relação com o imaginário do poder está
estabelecida.
A
vida metaforizada como um trem mostra, no personagem do bobo, que este não é tão
bobo, ele é bobo, até certo ponto pois identifica no soldado alemão que ele
avista no pequeno povoado em que vivia, a eminencia de uma catástrofe na qual
está inserido. Podemos dizer que Schlomo é o personagem central do filme. O
homem das boas ideias, aquele que faz uma bela oração questionando a relação do
homem com Deus ao dizer que nunca se oferece nada a Deus só se pede a Deus o
que nos coloca diante da máxima de que não foi o homem que foi criado por Deus
mas sim que o homem criou Deus.
Diante
de tantos personagens importantes: os nazistas mais nazistas que os nazistas,
os comunistas mais radicais que nunca em relação ao poder, os deportados a
exigir espaço a mais no trem, os ciganos mais segregados ainda e, para culminar
as imposturas, o encontro do falso oficial nazista com o oficial alemão, na
linha do trem, leva o falso oficial a resgatar um prisioneiro judeu, sob a
acusação de, o oficial nazista, ter simpatia por um judeu o que culmina com a
soltura do judeu.
Chegado
o fim da linha quando o trem entra na Palestina, Schlomo acorda do sonho,
acorda como prisioneiro num campo de concentração. O sonho não permite a
realização do desejo de Palestina de Schlomo que encarnaria toda a sua judeidade
e a dos judeus.
A
segregação ao judeu, como é o caso aqui, indica as consequências da disjunção
entre política e ética. Tal disjunção opera a partir da identificação
com o Outro do poder, aquele que pode gozar de tudo como o pai da horda, o
detentor das normas, para nós, psicanalistas o detentor do falo, o ao menos um
que escapa a castração.
No
caso da segregação aprendemos com Freud que o ódio comum pode unificar uma
massa, ela se manterá ligada a uma identificação segregativa ao líder. “ Nada é
capaz de reunir tantas pessoas no amor se não quando há alguém para Odiar”. S
Freud – Psicologia das massas e analise do eu. No caso deste filme, o judeu.
Se
Lacan insiste sobre a dimensão do racismo em sua “Proposição”, é para sublinhar
que todo o conjunto humano comporta, no fundo, um gozo extraviado, perdido, um não
saber fundamental sobre o gozo que corresponderia a uma identificação. O gozo
mau, em jogo no discurso racista, ignora esta lógica. Ela está no fundamento de
todo laço social. O crime fundador não é a morte do pai, mas a vontade de matar
aquele que encarna o gozo que eu rejeito. Para Freud o ódio e a rejeição
racista fazem laço e permanecem conectados ao líder que toma o lugar do pai ou
do pai morto. A massa estável comporta nela própria a limitação. O ódio comum
pode unificar a massa, ela permanece ligada a uma identificação segregativa ao
líder.
Para
Lacan, como disse, é uma questão de gozo. Não é homem aquele que eu rejeito
como tendo um gozo distinto do meu. O judeu não goza como o ariano: um homem
não é um homem se não goza como eu.
Quanto
a segregação, Lacan insiste que a preocupação de normatizar o gozo daquele que
emigra se dá em nome do seu bem. Deixar a este Outro o seu modo de gozo é o que
não podemos, por isso lhe impomos o nosso. “Não há choque de civilizações mas
choque de gozos. Os múltiplos gozos fragmentam o laço social, donde a tentação
de ter um Deus unificante.” Laurent, E. in Racismo 2.0 - Lacan Quotidien.
Lacan prenuncia o retorno do fundamentalismo religioso; “ Deus ao retomar sua força , terminará por ex-sistir, o que não pressagia nada de melhor se não o seu passado funesto”. Quanto ao racismo Lacan levará em conta a multiplicidade de objetos rejeitados, suas distintas formas vão do antissemitismo pré guerra até levar ao racismo nazi, ao racismo pós colonial dirigido aos emigrantes. “O racismo muda seus objetos à medida em que as formas sociais se modificam, porém segundo a perspectiva de Lacan, sempre jaz numa comunidade humana, o rejeito de um gozo inassimilável, viés de uma barbárie possível”. Laurent, E. in Racismo 2.0 - Lacan Quotidien. in Racismo 2.0.
Lacan prenuncia o retorno do fundamentalismo religioso; “ Deus ao retomar sua força , terminará por ex-sistir, o que não pressagia nada de melhor se não o seu passado funesto”. Quanto ao racismo Lacan levará em conta a multiplicidade de objetos rejeitados, suas distintas formas vão do antissemitismo pré guerra até levar ao racismo nazi, ao racismo pós colonial dirigido aos emigrantes. “O racismo muda seus objetos à medida em que as formas sociais se modificam, porém segundo a perspectiva de Lacan, sempre jaz numa comunidade humana, o rejeito de um gozo inassimilável, viés de uma barbárie possível”. Laurent, E. in Racismo 2.0 - Lacan Quotidien. in Racismo 2.0.
BIBLIOGRAFIA
1-
Freud, S. Psicologia das Massas e Análise do eu,
in Obras Completas, vol XVIII, Imago ed, RJ, 1981.
2-
Laurent,
E. Lacan Racismo 2.0, in Lacan Quotidien 371.
3-
Lacan, J. Proposição de 9 de outubro de 67, in
Outros Escritos, Zahar Ed.
