O Sintagma Parceiro-Sintoma por Ana Maria Ferreira

Mulher no espelho - Pablo Picasso

Do Curso O Parceiro-Sintoma (1997/98) 
de Jacques-Alain Miller. 
1º aula- 19 de novembro de 1997.
Versão adaptada por Ana Maria Ferreira da Silva, apresentada no encontro do CLAC.

Miller, nesta primeira aula do seu curso O Parceiro-Sintoma, faz um percurso na obra de Lacan a cerca do conceito de sintoma nos três ensinos.
Segundo ele, este é um terreno árido. Miller se autoriza a enriquecer esta distribuição ao longo desse curso, de complicá-la, como até corrigi-la na medida em que, segundo ele, Lacan deixa desníveis e buracos nesse ensino.
Miller inicia sinalizando que um analista tem que ser responsável pelo que quis dizer e pelo que não quis dizer, mas que o analisante escutou. “Sua responsabilidade com respeito à sua palavra é radical”. “Isto define o que é um analista: calcula o que dá a entender no que diz – isto é a interpretação”.
Desde que Miller propôs o sintagma parceiro-sintoma, o termo sintoma é utilizado, no campo freudiano, em oposição a outro conceito, sintoma como guia.
A oposição de sintoma a um termo não tem um sentido unívoco. Pode significar a identidade, esse termo como sintoma; a equivalência, esse termo com valor de sintoma; ou a pertinência desse termo x a ordem do sintoma. Neste caso, ao colocar o sintoma em oposição coloca a ordem do sintoma no horizonte. Pelo fato de servir-se do termo sintoma em oposição, o torna um adjetivo, oposição adjetivada, um atributo. Miller sente-se obrigado a falar da ordem do sintoma a partir de que Lacan elevou o sintoma à categoria junto às outras 3 categorias: o simbólico, o imaginário e o real, onde o sintoma é suscetível de entrar como 4º nesta série.
No 1º ensino, Lacan considerava o real fora da experiência analítica, como resto fecundo que não se anexa aos outros registros. Como trata-se de uma extimidade, ele impõe sua presença, insiste.
Miller ao se remeter ao estruturalismo, menciona o sentido dado ao sintoma na 1ª página da Carta Roubada. “É o simbólico quem toma o real, neste caso o organismo humano. Quando Lacan fala de organismo, aponta para a dimensão real, diferentemente do “corpo”, que já está aparelhado, marcado por uma imagem. “Aqui se trata do simbólico, na medida em que toma o real pelo viés do imaginário..., este serve de mediação do simbólico para apropriar-se do real. Ao simbolizar, o real fica fora.” Um real cru, vemos no esquema do espelho e o vaso invertido, algo escapa da imagem que não pôde ser simbolizada, ficando como resto no real (p.15).
Nesse 1º ensino, o simbólico é uma cadeia significante, é a lei. Segundo Lacan, é a lei própria desta cadeia, a que rege os efeitos psicanalíticos determinantes para o sujeito. Esses efeitos são: a foraclusão, a repressão a negação.
O sujeito é submetido pela lei própria do simbólico, é o objeto submetido, dominado ao deslocamento da cadeia do significante, ilustrado no conto de Edgar Alan Poe. O inconsciente é apresentado como discurso do amo. Diante dessa mão de ferro, o sujeito arranja-se com seu sintoma.
Neste momento Lacan exclui o que se repete, o real. O automatismo de repetição freudiano, não provem do real, provem da lei interna da cadeia significante. O real é limitado à pura contingência, uma contingência cujo estatuto é definido a partir das exigências do simbólico, de um certo número de cálculos de probabilidades, como no jogo de cara ou coroa da moeda (p.18).
Podemos ver no seminário A ética da psicanálise que “o real, esse que está fora da experiência impõe de fato sua presença, sua instancia, sua insistência” e que o resto, segundo Lacan, encontra, sem dúvida, seu princípio nesta instância do real. Lacan, para alojá-lo, desloca um termo da álgebra, “a” minúsculo para aparelha-lo no giro dos discursos. Lacan, se autoriza a colocar o “a” como real mas para isso teve que rever o sintoma. Neste seminário, na 1º lição, Lacan o faz pelo viés do utilitarismo. Quando se volta para o gozo como real, no seminário 20, também é pelo viés do utilitarismo que ele introduz esta relação com o real (p.11).
A partir deste seminário, o real se encontra no interior da experiência analítica; simbólico e imaginário reunidos em relação com o real. A questão então é saber se o sintoma se inscreve no registro do semblante, OU se deve inscrevê-lo sob o emblema do real OU fazer dele um suplemento a este binário do semblante e do real, numa posição de mediador entre o semblante e o real (p.13).
Ao mesmo tempo, Lacan promove um novo uso, uma nova significação do termo sintoma até o final de seu ensino.
Miller indaga como utilizamos normalmente a palavra sintoma.
O sintoma designa uma disfunção “Há sintoma quando algo não funciona como deveria”. Neste fracasso do funcionamento se revela algo verdadeiro. O sintoma significa que a disfunção revela uma verdade. Segundo Lacan “o sintoma é verdade”, definição encontrada no prefácio dos Escritos – Informe de Roma, 1966. Segundo Miller, essa referência de Lacan supõe a incidência prévia da ciência. Miller sinaliza que o sintoma pode tomar valor de verdade em psicanálise na condição de que a ciência deixe em suspenso as questões da verdade. Antes, a ciência não colocava em suspenso as questões da verdade, que existia na forma de revelação. A ciência toma forma lógica a partir do momento que deixou de lado a questão da verdade e preferiu uma articulação significante (S1-S2). Assim a verdade pode retornar com a psicanálise sob a forma dos efeitos de significado que engendram esta cadeia significante, efeitos determinantes, como a repressão ou a negação, cujo retorno perturba esta articulação do saber (p.25). “Na psicanálise, a verdade se apresenta sempre sob a forma de sintoma, como um elemento que perturba o saber, mas é necessário que haja esse saber, inclusive sob a forma “científica”, um saber articulado já que tem que haver uma ordem prévia”. Esta ordem prévia não se trata de um saber num sentido científico, mas de um saber no real. O sintoma aparece como o que há de suprimir, mudar, retificar, o que há de se fazer desaparecer enquanto elemento que perturba. O que está reprimido é a verdade e seu retorno se faz sob a forma de sintoma. Segundo Lacan, o sintoma não é uma disfunção, é um funcionamento do saber no real, logo é da mesma ordem que o real (p. 23).
O sintoma, no último ensino é um termo que permanece errante, se apresenta em primeiro lugar, como um “mais um” no ternário, enquanto 4º círculo. Necessário para enodar de modo borromeano os outros três campos ou necessário se o enodamento dos três falhar servindo como suplência.

Nos casos das psicoses, o sintoma é um aparato de suplência que permite que o funcionamento prossiga, permite que o sujeito se sustente no mundo.
Essa perspectiva do sintoma como suplência, pode ser encontrada em Freud em “Inibição, sintoma e angústia”, precisamente quando Freud descreve a incorporação do sintoma no eu, principalmente na neurose obsessivo.
Em segundo lugar, o sintoma é da ordem do simbólico, classificado como uma formação do inconsciente, conceito que não é desmentido por Lacan no último ensino.
Em terceiro lugar, o sintoma também é colocado, eventualmente, no registro do real.
Em quarto lugar o sintoma aparece como categoria de semblante, na forma que reúne o simbólico e o imaginário.
Miller indaga para que nos serve o uso da palavra sintoma. Então ele se remete ao seu curso “O outro que não existe e seus comitês de ética” onde ele deu dois usos para o sintoma: como savoir y faire (arranjar-se) ou savoir faire (saber fazer) com o sintoma (p.14).
Neste curso, Miller também visa indagar o conceito de uso em relação à determinação simbólica. Isto conduz a dar à prática analítica, seu sentido próprio, uma dimensão distinta da teoria. Aponta a uma teoria da prática enquanto a prática é distinta da teoria. Lacan assinalava que a psicanálise era essencialmente uma prática e não uma teoria do inconsciente. Isto pode ser visto quando Lacan deslizou na estrutura mesma o elemento que chamou “objeto a”.
A transmissão da teoria não é possível, somente funciona a transmissão de certo saber fazer, saber arranjar-se com, na experiência analítica e sua transmissão na formação do analista (p.19, Os poderes da prática). Miller cita um dito de Lacan que segundo ele não está escrito: “A teoria deve sempre passar finalmente seus poderes à prática”. Outra indicação de Lacan em relação aos poderes da prática se dá em sua frase: “sabe arranjar-se com o sintoma”.
“Admitamos que a nossa prática prescinde de nosso vocabulário” (p.20). Prescinde, inclusive da teoria de Lacan, da que se extraem peças. Se trata de saber se no nível da prática se pode encontrar um só mundo para os psicanalistas?” (Miller, p.20).
Miller, no curso “O outro que não existe...” considera que Inibição, sintoma e angústia é a chave do último ensino de Lacan, leitura que sustenta o Seminário: Mais, ainda... O que Freud destaca e constrói é que o sujeito no sintoma continua gozando por outros meios. Segundo Freud, para representar satisfações.
Nesse caso, então, não se trata do sintoma como verdade, e sim como gozo.
Esta definição corrige a de Lacan nos Escritos no texto “Do sujeito enfim em questão” (p.236), onde ele trata o sintoma do sujeito pelo viés da castração. Neste fala de Lacan, o advento do sintoma tem lugar no que chama “a chave desse traço radical do sujeito que é a castração onde o sintoma está do lado do S barrado, que engendrado pela cadeia significante, no lugar da verdade é susceptível de retornar como sintoma perturbador que deve ser decifrado e subtraído seu valor de – phi, seu valor de castração desse S barrado (p.27). Com isto há uma anulação do gozo.
No último ensino, pelo contrário, Lacan diz que o traço radical do sujeito por onde tem lugar o advento do sintoma, não é a castração, senão o gozo. O que se realiza na castração não é a anulação do gozo, senão, pelo contrário, o mais de gozar. Logo a partir do Seminário: Mais ainda..., Lacan passa a pensar o sintoma a partir do objeto a, a partir do mais de gozar. Sendo assim, esse sintoma não é perturbador, pelo contrário, designa uma maneira de gozar: “O ser falante goza de modo sintomático”. No entanto há sempre uma falha no gozar, com respeito ao que seria o gozo conveniente, se este gozo conveniente existisse.
Na p.81 do Seminário: Mais ainda..., Lacan esclarece que na medida em que falta o gozo que conveniaria à relação sexual, ele é substituído, metaforizado, se infiltra em outros lugares onde não deveria estar. Logo, este é o matema do parceiro-sintoma, onde o “objeto a” ocupa o lugar do parceiro que falta a/-phi. Lacan coloca o a do lado do macho, parceiro que falta, sendo que alguns anos mais tarde, diz que uma mulher não somente se inscreve como “objeto a” para um homem, senão como sintoma. Pode-se dizer que o sintoma será o involucro desse objeto a.
Nesse caso, então, não se trata do sintoma como verdade, e sim como gozo.