O JOVEM NO MUNDO ATUAL[1]



Patrícia Guimarães

Cherubina De Cicco











Com Patrícia Guimarães - Psicanalista e Praticante do CLAC Cherubina De Cicco - Psicanalista e Praticante do CLAC.

Bom dia a todos e todos. Gostaria de agradecer à professora Ana Ferreira pelo convite e à professora Alzira Carvalho pela oportunidade de falar hoje com vocês. Já que no título da nossa conversa já aparece o significante mundo atual, eu diria que hoje em dia temos que agarrar com unhas e dentes uma oportunidade como essa e nos esforçar para fazer circular a palavra e que ela seja ouvida. Nesse sentido eu estou muito feliz de estar hoje aqui! Eu pensei ainda de introduzir uma reflexão logo na abertura: de que jovem estamos falando e a que nos referimos quando circunscrevemos mundo atual? Jovem, juventude, adolescência não são apenas palavras, a meu ver são conceitos, pelo menos é a forma como vou tratá-los aqui nessa manhã. Não por uma caretice acadêmica, mas por considerar importante elevá-los à categoria de conceitos. Dar-lhes   essa dignidade.
De que jovem estamos falando? Certo recorte cronológico na vida de um indivíduo? Um estado de espírito? Já começamos por um problema, não há uma única representação do que seja o jovem. Existe um conceito chamado adolescência que de uma maneira condensa um número bastante grande de referências teóricas, clínicas, sociais, pedagógicas e por aí vai...
Então, eu farei uma afirmação: a adolescência não é algo em si, ela é uma construção. Na idade média não havia uma distinção social clara entre infância, adolescência e vida adulta. Foi a partir de algum marcos históricos e sociais que essas categorias, digamos assim, foram sendo estabelecidas. Mas já que eu topei em vir aqui falar sobre adolescência eu vou ter que dizer algo sobre o que seria essa construção a partir do meu lugar de psicanalista na cidade. Além de ser Praticante CLAC – Centro Lacaniano de Atendimento e Consulta, também atuo na rede de saúde mental do Rio de Janeiro numa instituição chamada Centro de Atenção Psicossocial Maurício de Sousa. Então, o meu viés será clínico com o esforço de inserir essa leitura num contexto, o atual, como foi proposto.
Falar do mundo atual também é um desafio, já que está caracterizado por mudanças lancinantes em espaços de tempo cada vez mais curtos. Então, juntamos adolescência como construção num mundo em transformação. A perspectiva a partir da qual eu vou falar que é a psicanálise não é única, muito menos unânime, mas espero que traga alguma contribuição para vocês enquanto jovens, estudantes, cidadãos, enfim, nas mais variadas dimensões da experiência vivida.
A característica mais marcante deste século é o avanço do campo digital. A vida das pessoas foi transformada de uma maneira radical com o advento da internet e dos celulares, mas principalmente da articulação dessas duas mídias.  Não pretendemos adentrar no debate moral sobre essas modificações, ou seja, é melhor, é pior, mais difícil apenas, indicar que existem certos modos de levar a vida que passaram a existir muito recentemente. Por exemplo, no que tange ao campo da família, hoje existem configurações familiares plurais e não apenas mais a família nuclear pai, mãe e filhos. As novas configurações familiares se articulam às novas configurações sexuais onde o debate sobre o gênero vai rompendo tabus e paradigmas. As relações sociais também estão sofrendo uma profunda modificação com o advento dos gadgets. Não há uma tradução para o português que dê conta desse fenômeno: são os computadores, tablets, celulares, mas também todos os aplicativos e novas formas de comunicação através da internet.
A proposta é refletir junto com vocês sobre as incidências dessas novas configurações sobre a subjetividade. Que efeitos todas essas modificações produzem nos modos de subjetivação contemporâneas? Modos de subjetivação são os modos como cada um vai se apropriando e se transformando a partir da apropriação de novas ideias, novos costumes, novos debates e podemos fazer um contraponto à ideia da adolescência como um momento cronológico de passagem entre a infância e a idade adulta e dizer que se trata mais de uma passagem lógica, onde todos esses elementos entram em jogo na constituição de um modo de estar no mundo que é causa e efeito ao mesmo tempo.
Outro aspecto da contemporaneidade que gostaria de destacar na nossa conversa é o que chamamos de queda do patriarcado. Isso não significa apenas a descentralização da figura do pai na configuração da família, mas à perda da consistência de uma série de referências universais das quais o pai era apenas uma delas, uma referência importante, é necessário salientar, mas trata-se mais de uma função ordenadora simbólica. Freud, no texto “Totem e tabu” (1913) criou um mito chamado mito da horda primeva, no qual havia Um pai que era o único detentor dos direitos, aliás não eram direitos, ele era um pai autoritário e somente ele tinha acesso aos prazeres da vida, por exemplo, somente a ele caberia tomar as mulheres em relação sexual. Era um pai tirânico, autoritário. Esses filhos se unem e matam o pai, mas é tomado por uma culpa enorme diante desse ato, o parricídio.  Respondem a essa falta que o pai faz ordenando que todos os homens poderiam ter relações sexuais com as mulheres da tribo exceto com uma, a mãe. Assim instaura-se uma lei simbólica, uma norma que ordena a forma como essa sociedade se organiza. Esse mito é criado na época vitoriana, época em que a moral e os bons costumes tinham referências bem rígidas e claras. Todos sabiam o que era considerado certo, errado, bom, mal.  A análise que Freud faz à época sobre a incidência desse momento social na subjetividade leva-o, tomando emprestado o mito de Édipo, à teorização do complexo de édipo, onde o pai insere-se numa ordem que barra o momento idílico entre o bebê e a mãe, ou seja, faz-se desejável pela mãe. Esse afastamento da mãe em direção ao pai, deixa a criança num estado de desamparo, que instaura uma falta, mas que ao mesmo tempo, essa falta é o que impulsiona uma separação constitutiva da subjetividade enquanto desejo. Só deseja aquele a quem alguma coisa falta. Era como se essa regra operasse para todos.
Hoje as referências são líquidas, já ouviram falar nesse termo? De um filósofo contemporâneo Zygmunt Bauman. Líquida significa pouco ou nada consistente, que não tem uma forma delimitada, mas ao mesmo tempo plural, múltipla. Se a constituição da subjetividade para a psicanálise estava tão remetida a esse referencial universal do pai, no sentido de uma interdição que promove uma falta que se torna causa de desejo, como a subjetividade se constitui hoje nesse ambiente de referências líquidas?
Não é que não existam mais referências. Elas estão aí!  O discurso da ciência produz uma série de novos paradigmas que são transformados em objetos ao serem capturados pelo capitalismo. E a gente lança mão deles todos os dias seja na forma de ideais, estilo de vida, formas de amar, enfim estar no mundo que estão a nossa disposição. A mudança que percebemos nesse contexto é que essas referências além de múltiplas e plurais, elas estão soltas, não há uma articulação prévia entre elas. A própria adolescência hoje, por exemplo, não possui um referencial mais fixo como a idade cronológica já foi. Hoje existe, por exemplo, uma adolescência tardia. São pessoas, ás vezes com 45 anos de idade e que ainda estão envolvidas com os impasses de escolher uma profissão e por procrastinar uma decisão acabam por permanecer na casa dos pais por um tempo muito mais longo. A procrastinação de uma decisão, por estar ás voltas com a reflexão do que se é, do que se quer ser, sobre futuro, que se perpetua de uma forma que o próprio tempo cronológico deixa de ser uma referência mais estável.
Cabe a cada um encontrar um modo de costurar essas referencias. Cabe a cada um descobrir por si mesmo de que modo específico pode estar no mundo. Freud falou disso num texto chamado “Mal-estar na civilização” (1929) em que de uma maneira visionária ele já previa que a cada um cabe uma invenção que lhe sirva de norte, que seja capaz de lhe orientar numa direção, um caminho, mas um caminho que se faz ao caminhar, num processo, já que não há nada prévio. Se o Freud falava que o processo civilizatório implica num mal-estar devido a interdição de um gozo, de uma satisfação sem limites, concluímos que os seres falantes se constituem como tal pautados numa impossibilidade. O sujeito do inconsciente se constitui a partir de uma falta estrutural. Isso tem repercussões na forma como os seres falantes se relacionam entre si. O ser humano, por exemplo, é o único animal que pode extinguir com sua própria espécie, ainda bem que os cientistas ás vezes se angustiam com o poder de suas descobertas e criam formas de regulação como os comitês de ética. Por outro lado, essa falta é o que permite todas as invenções maravilhosas de que o homem é capaz de realizar.
Como eu falei no início, não estamos hoje aqui para criticar, avaliar o que é melhor ou pior, mas de debatermos sobre os efeitos, as consequências que essas modificações incidem sobre nós. Uma delas é uma exigência, por um lado, mas também uma oportunidade, por outro, de encontrarmos através de uma invenção totalmente singular e original, uma forma de estarmos no mundo.



[1] Palestra proferida na Escola Técnica Estadual Adolfo Bloch no dia 10 de abril de 2018 com a participação de Cherubina de Cicco e Ana Ferreira da Silva, Psicanalistas e Praticantes do CLAC - Centro Lacaniano de Atendimento e Consultas.