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| Patrícia Guimarães |
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| Cherubina De Cicco |
Com Patrícia Guimarães - Psicanalista e Praticante do CLAC e Cherubina De Cicco - Psicanalista e Praticante do CLAC.
De
que jovem estamos falando? Certo recorte cronológico na vida de um indivíduo?
Um estado de espírito? Já começamos por um problema, não há uma única
representação do que seja o jovem. Existe um conceito chamado adolescência que
de uma maneira condensa um número bastante grande de referências teóricas,
clínicas, sociais, pedagógicas e por aí vai...
Então,
eu farei uma afirmação: a adolescência não é algo em si, ela é uma construção.
Na idade média não havia uma distinção social clara entre infância,
adolescência e vida adulta. Foi a partir de algum marcos históricos e sociais
que essas categorias, digamos assim, foram sendo estabelecidas. Mas já que eu
topei em vir aqui falar sobre adolescência eu vou ter que dizer algo sobre o
que seria essa construção a partir do meu lugar de psicanalista na cidade. Além
de ser Praticante CLAC – Centro Lacaniano
de Atendimento e Consulta, também atuo na rede de saúde mental do Rio de
Janeiro numa instituição chamada Centro
de Atenção Psicossocial Maurício de Sousa. Então, o meu viés será clínico
com o esforço de inserir essa leitura num contexto, o atual, como foi proposto.
Falar
do mundo atual também é um desafio, já que está caracterizado por mudanças
lancinantes em espaços de tempo cada vez mais curtos. Então, juntamos
adolescência como construção num mundo em transformação. A perspectiva a partir
da qual eu vou falar que é a psicanálise não é única, muito menos unânime, mas
espero que traga alguma contribuição para vocês enquanto jovens, estudantes,
cidadãos, enfim, nas mais variadas dimensões da experiência vivida.
A
característica mais marcante deste século é o avanço do campo digital. A vida
das pessoas foi transformada de uma maneira radical com o advento da internet e
dos celulares, mas principalmente da articulação dessas duas mídias. Não pretendemos adentrar no debate moral sobre
essas modificações, ou seja, é melhor, é pior, mais difícil apenas, indicar que
existem certos modos de levar a vida que passaram a existir muito recentemente.
Por exemplo, no que tange ao campo da família, hoje existem configurações
familiares plurais e não apenas mais a família nuclear pai, mãe e filhos. As
novas configurações familiares se articulam às novas configurações sexuais onde
o debate sobre o gênero vai rompendo tabus e paradigmas. As relações sociais
também estão sofrendo uma profunda modificação com o advento dos gadgets. Não
há uma tradução para o português que dê conta desse fenômeno: são os
computadores, tablets, celulares, mas também todos os aplicativos e novas
formas de comunicação através da internet.
A
proposta é refletir junto com vocês sobre as incidências dessas novas
configurações sobre a subjetividade. Que efeitos todas essas modificações
produzem nos modos de subjetivação contemporâneas? Modos de subjetivação são os
modos como cada um vai se apropriando e se transformando a partir da
apropriação de novas ideias, novos costumes, novos debates e podemos fazer um
contraponto à ideia da adolescência como um momento cronológico de passagem
entre a infância e a idade adulta e dizer que se trata mais de uma passagem
lógica, onde todos esses elementos entram em jogo na constituição de um modo de
estar no mundo que é causa e efeito ao mesmo tempo.
Outro
aspecto da contemporaneidade que gostaria de destacar na nossa conversa é o que
chamamos de queda do patriarcado. Isso não significa apenas a descentralização
da figura do pai na configuração da família, mas à perda da consistência de uma
série de referências universais das quais o pai era apenas uma delas, uma
referência importante, é necessário salientar, mas trata-se mais de uma função
ordenadora simbólica. Freud, no texto “Totem e tabu” (1913) criou um mito chamado
mito da horda primeva, no qual havia Um pai que era o único detentor dos
direitos, aliás não eram direitos, ele era um pai autoritário e somente ele
tinha acesso aos prazeres da vida, por exemplo, somente a ele caberia tomar as
mulheres em relação sexual. Era um pai tirânico, autoritário. Esses filhos se
unem e matam o pai, mas é tomado por uma culpa enorme diante desse ato, o
parricídio. Respondem a essa falta que o
pai faz ordenando que todos os homens poderiam ter relações sexuais com as
mulheres da tribo exceto com uma, a mãe. Assim instaura-se uma lei simbólica,
uma norma que ordena a forma como essa sociedade se organiza. Esse mito é
criado na época vitoriana, época em que a moral e os bons costumes tinham
referências bem rígidas e claras. Todos sabiam o que era considerado certo,
errado, bom, mal. A análise que Freud
faz à época sobre a incidência desse momento social na subjetividade leva-o,
tomando emprestado o mito de Édipo, à teorização do complexo de édipo, onde o
pai insere-se numa ordem que barra o momento idílico entre o bebê e a mãe, ou
seja, faz-se desejável pela mãe. Esse afastamento da mãe em direção ao pai,
deixa a criança num estado de desamparo, que instaura uma falta, mas que ao
mesmo tempo, essa falta é o que impulsiona uma separação constitutiva da
subjetividade enquanto desejo. Só deseja aquele a quem alguma coisa falta. Era
como se essa regra operasse para todos.
Hoje
as referências são líquidas, já ouviram falar nesse termo? De um filósofo
contemporâneo Zygmunt Bauman. Líquida significa pouco ou nada consistente, que
não tem uma forma delimitada, mas ao mesmo tempo plural, múltipla. Se a
constituição da subjetividade para a psicanálise estava tão remetida a esse
referencial universal do pai, no sentido de uma interdição que promove uma
falta que se torna causa de desejo, como a subjetividade se constitui hoje
nesse ambiente de referências líquidas?
Não
é que não existam mais referências. Elas estão aí! O discurso da ciência produz uma série de
novos paradigmas que são transformados em objetos ao serem capturados pelo
capitalismo. E a gente lança mão deles todos os dias seja na forma de ideais,
estilo de vida, formas de amar, enfim estar no mundo que estão a nossa
disposição. A mudança que percebemos nesse contexto é que essas referências
além de múltiplas e plurais, elas estão soltas, não há uma articulação prévia
entre elas. A própria adolescência hoje, por exemplo, não possui um referencial
mais fixo como a idade cronológica já foi. Hoje existe, por exemplo, uma
adolescência tardia. São pessoas, ás vezes com 45 anos de idade e que ainda
estão envolvidas com os impasses de escolher uma profissão e por procrastinar
uma decisão acabam por permanecer na casa dos pais por um tempo muito mais
longo. A procrastinação de uma decisão, por estar ás voltas com a reflexão do
que se é, do que se quer ser, sobre futuro, que se perpetua de uma forma que o
próprio tempo cronológico deixa de ser uma referência mais estável.
Cabe
a cada um encontrar um modo de costurar essas referencias. Cabe a cada um descobrir
por si mesmo de que modo específico pode estar no mundo. Freud falou disso num
texto chamado “Mal-estar na civilização” (1929) em que de uma maneira
visionária ele já previa que a cada um cabe uma invenção que lhe sirva de
norte, que seja capaz de lhe orientar numa direção, um caminho, mas um caminho
que se faz ao caminhar, num processo, já que não há nada prévio. Se o Freud
falava que o processo civilizatório implica num mal-estar devido a interdição
de um gozo, de uma satisfação sem limites, concluímos que os seres falantes se
constituem como tal pautados numa impossibilidade. O sujeito do inconsciente se
constitui a partir de uma falta estrutural. Isso tem repercussões na forma como
os seres falantes se relacionam entre si. O ser humano, por exemplo, é o único
animal que pode extinguir com sua própria espécie, ainda bem que os cientistas
ás vezes se angustiam com o poder de suas descobertas e criam formas de
regulação como os comitês de ética. Por outro lado, essa falta é o que permite
todas as invenções maravilhosas de que o homem é capaz de realizar.
Como
eu falei no início, não estamos hoje aqui para criticar, avaliar o que é melhor
ou pior, mas de debatermos sobre os efeitos, as consequências que essas
modificações incidem sobre nós. Uma delas é uma exigência, por um lado, mas também
uma oportunidade, por outro, de encontrarmos através de uma invenção totalmente
singular e original, uma forma de estarmos no mundo.
[1] Palestra proferida na Escola Técnica Estadual Adolfo Bloch no dia 10 de abril de 2018 com
a participação de Cherubina de Cicco e Ana Ferreira da Silva, Psicanalistas e Praticantes
do CLAC - Centro Lacaniano de Atendimento e Consultas.

