Primeiros passos no CPCT : de cidade em mulher



Françoise Haccon (CPCT Marseille)

A primeira consulta constitui uma formalização da demanda e um momento de encontro com o discurso analítico. Cabe ao praticante do grupo A esclarecer as primeiras demandas, especificar a relação do sujeito com a palavra e orientar ou não para a possibilidade de tratamento. Qual “utilidade particular” para consultar o CPCT? Segundo J-A Miller (1), trata-se menos de antecipar se a característica do trastorno é “acessível” à psicanálise, do que de saber se o encontro com um analista será útil ou não, fará bem ou mal” (2). Privilegiar uma “clínica do encontro” dará chance de produzir efeitos e abrir uma via possível à urgência para dizer se ela é acolhida. Demandas às vezes confusa, paradoxais para extrair detrás do que está sendo formulado.
“Só pergunta ‘o que fazer’ aquele cujo desejo se apaga”(3). É esta questão que Michel dirige para o CPCT, a fim de que uma porta se abra para se (re)engajar no caminho do desejo. Para este ser falante desorientado, uma demanda sob fundo de uma transferência já está aqui. Nós propomos que esta primeira entrevista comporte, no centro mesmo de sua estrutura, os três tempos lógicos: o instante de ver, uma formulação da demanda; o tempo para compreender, um desenrolar de significantes; o momento de concluir, nominação de um pedaço de real.
Será preciso duas consultas para circunscrever a demanda de Michel, 44 anos. A partir de dois encontros, eu destacarei uma temporalidade subjetiva para precisar uma demanda velada e com omissões, em três tempos.
Tempo 1
Michel está em um momento de grande fragilidade. Ele está “mais do que perdido”. Esta desorientação real abre uma brecha em sua vida entre uma cidade e outra. Fotografia, é um projeto profissional e artístico que o levou a Marseille. Ele também chega em consequência de sua ruptura com sua companheira, cuja irmã se suicidou, tal como a sua própria irmã. Ele não pôde apoiá-la o suficiente diante deste acontecimento e a relação se deteriorou, apesar de um apego mútuo. Sua transferência com a psicanálise iniciou de uma vivência difícil: seu analista faleceu há um ano. Ele encontrou a porta fechada, quando estava indo para sua sessão. Ele se colocou, então, a questão do fim de sua análise. Da análise, ele diz que é o que lhe permitiu ficar vivo até aqui.
O que ainda aconteceu com ele? Ele sofre de frequentes falhas sexuais, fica preocupado sem nenhum afeto aparente. Especialmente desde que teve um novo encontro amoroso, e se diz no “borrão, nos limbos”. Ele está “perdido”, não sabe o que pedir, o que querer. Diante deste “borrão” observado em seus ditos metonímicos, eu faço uma escansão na entrevista. Eu o convido para pensar precisamente sobre sua demanda, para fazer uma volta a mais, para destacar esta nova temporalidade que se apresenta para ele e voltar para uma segunda consulta. Ele acena e marca uma nova consulta.
Tempo 2
Ele retorna determinado e enuncia de modo mais “posicionado” o que lhe acontece. Este Tempo 2 produziu um efeito de articulação de sua demanda em torno de seu desejo. O abalo da primeira consulta é  moderado, a urgência subjetiva, domada. Sua perturbação se origina na mudança de “cidade e de vida”. À minha demanda de precisões, ele diz: “de cidade e de mulher”. Tão cheio de vida, ele se dá conta de que as coisas são mais complicadas do que acreditava ao nível pessoal. Ele está sobrecarregado de coisas para fazer, não as consegue realizar, mas sobretudo a questão do seu desejo está à prova, ele tem desejo de saber o que quer verdadeiramente.
Tempo 3
Um antes e um depois, entre o fim de uma relação amorosa e o início de uma nova que chega cedo demais, abre uma brecha, um buraco na subjetividade de Michel. No instante de sua verdade com seu encontro com uma mulher desejante, ele é dividido entre o desejo de se envolver e o medo experimentado diante da precipitação de viver esta relação com as numerosas demandas de amor de sua nova namorada. Michel não pode se inscrever nesta mudança indexada pela descontinuidade que toma a cor da errância, outro nome de sua crise subjetiva. Ele quer deixar o lugar para “encerrar a antiga relação”.
É o tempo de colocar um ato conclusivo a estas duas consultas. Se ele encontrou uma porta fechada, em consequência ao falecimento de seu analista parisiense, a porta do CPCT se abrirá para ele. Poderá ele fazer sua parte face a este real, em um intervalo que se cava entre as voltas de suas demandas e de seu desejo apagado? Nós apostamos na sua transferência com o discurso analítico, que faça dom de palavra para ele, corpo presente. Ficou registrado.
Continuação...
A demanda de entrada no CPCT é correlacionada a sua saída. Uma lógica topográfica de estrutura moebiana poderia surgir entre esta primeira consulta A e o resultado do tratamento? Eu perguntei a minha colega para saber o que o tratamento produziu, enquanto tal. Ele mencionou três projetos: a odisséia, os imigrantes e a guerra da Argélia. Ele ressalta que estes
projetos lhe concernem: Ulisse “quer entrar em casa e ver o mundo. Ele sabe quem ele é, de onde ele vem e onde ele vai. Eu, em algumas manhãs, eu tenho dúvida”.
Ao longo deste ciclo no CPCT, Michel “deu uma forma” a sua vida e reencontra “uma direção”. Este acompanhamento lhe permite, segundo sua fórmula, “organizar o caos sem o reduzir”. Ele prepara duas exposições. O tratamento lhe devolve um corpo vivo e surge um horizonte. Ele melhor consegue orientar sua errância e “suporta melhor”. Durante o tratamento, uma nominação na conversação lhe permite enlaçar seu corpo vivo pela identificação ao imigrante Ulisse: “são estes que querem chegar vivos do outro lado. Há a demanda de asilo, o que nós deixamos, e como inventamos alguma coisa. Eu me reconheço aí”.
Michel pede um endereço de analista para prosseguir seu trabalho. Uma porta para um analista se abre de novo para ele.

  Trabalho apresentado na II Journée de la FIPA - Rennes, 17 de março de 2018.
Tradução de Ana Martha Maia, exclusiva para o CLAC. 
Publicação autorizada pela autora.

Notas
1 Miller, J-A. « Les contre-indications au traitement psychanalytique ». Mental, nº5. 1998. P. 13.
2 Ibid, p.14.
3 Lacan, J. « Télévision ». Autres écrits. Paris : Seuil. 2001. P.541 (p.539 na edição da Zahar).