O encontro com Um analista no CLAC por Ana Martha Maia

                                                                              
Doutora em Psicologia UFRJ. Doutora em Letras, PUC-Rio.
Pós-doutora em Literatura Comparada UERJ
Psicanalista, Membro da EBP/AMP
Praticante no CLAC


No tempo das classificações diagnósticas baseadas nas evidências (em referência à evidence-based medicine), não há lugar para a angústia de que se pode fazer uso para encontrar novas soluções diante dos impasses que surgem ao longo da vida, momentos traumáticos de encontro com o real. Nem para o luto que acompanha a perda de alguém muito querido que se foi deixando saudade, luto agora é depressão. Menos ainda há lugar para a fobia na infância que tanto ajuda a criança a manter uma boa distância do objeto que representa para ela o medo do que a angustia. Fobia pode ser uma boa forma de apaziguamento, mesmo que aos olhos dos outros pareça uma coisa bizarra. 
Atualmente, tudo é déficit, transtorno, síndrome. Que lugar para o ser falante? - é a pergunta que se coloca e que a psicanálise de Orientação lacaniana se dedica a manter em aberto, oferecendo-se como possibilidade de tratamento, seja nos consultórios ou nas instituições sob a forma de Psicanálise Aplicada. Um lugar, entre laços sociais, é também o ponto crucial em torno do qual gira o trabalho que o Centro Lacaniano de Atendimento e Consultas (CLAC) desenvolve, desde sua fundação em 2007.
A Psicanálise na cidade.
A ‘ação lacaniana’ como presença da psicanálise na cidade não foi uma invenção de Jacques Lacan, ou de Jacques-Alain Miller. Freud (1919a) já havia proposto que a psicanálise pudesse estar nos serviços públicos, em seu texto "Linhas de progresso na terapia psicanalítica", apresentado em um Congresso da IPA. Ele sustenta que "a neurose pode ser tão incapacitante quanto uma tuberculose" (p.210).
A Policlínica Psicanalítica de Berlim e a Tavistock Clinic de Londres foram criadas com o duplo objetivo de formação em psicanálise e atendimento gratuito. De um lado o acesso do analista em formação à prática da psicanálise, e do outro lado, o acesso do paciente ao tratamento, com a gratuidade, independente de sua condição econômica e social.
Em "Sobre o ensino da psicanálise nas Universidades", Freud (1919b) ressalta a importância de que o aluno possa aprender algo sobre a psicanálise "a partir da psicanálise" (p.220), de sua prática.
Uma importante contribuição de Miller se desdobra do que Freud e Lacan transmitiram sobre a clínica psicanalítica: a proposta do Centre Psychanalytique de Consultations et de Traitement (CPCT) como resposta ao cenário político que se constituiu a partir dos anos 2000 visando avaliar as psicoterapias. Como se não bastasse o equívoco de considerar a psicanálise como uma delas, as críticas apresentadas nos Fórums Psy diziam respeito ao valor elevado das sessões, a longa duração das análises e a falta de resultados "eficazes" obtidos.
A "curápida", em um dispositivo inédito.
A proposta de um tratamento de curta duração e gratuito, em um Centro de Atendimento no coração da cidade, foi uma resposta de Miller aos constantes ataques que a psicanálise vinha sofrendo. Face ao marketing da ideologia do "saúde para todos", ele sustenta a política do sintoma, a clínica do detalhe que possibilita e orienta o tratamento na medida de cada ser falante, a partir de sua relação com a linguagem.
Como em qualquer análise, o trabalho somente se dá sob transferência. O analista está como parceiro neste dispositivo inédito que se propõe a uma "curápida" (p.80), na expressão empregada por Miller (2005) durante a “Conversação Clínica” do Instituto do Campo Freudiano em Barcelona, em que abordou a questão do tempo e a Teoria dos Ciclos. "Curápida", no sentido do “Efeito terapêutico rápido” que corresponde a uma redução do gozo implicado no sintoma, o que por sua vez corresponde ao tempo do “Primeiro ciclo”.
Sobre os ciclos, o psicanalista Miquel Bassols circunscreve nesta Conversação que não se trata de um desenvolvimento em etapas, uma evolução, mas "ciclos que se abrem e que podem produzir certos pontos de não repetição no sujeito" (p.105).
Na brevidade do tempo, Um encontro.
Uma gagueira decorrente do abuso sexual infantil; uma escolha amorosa para a constituição de uma família em que a mulher sucumbe na maternidade em detrimento do desejo feminino; uma carreira musical e um casamento que já "não fazem sentido"... são esses alguns dos mais diferentes motivos pelos quais um ser falante é levado a procurar atendimento no CLAC, mas é por um ‘laço singular’ que a transferência se estabelece e o tratamento se inicia.  É preciso Um encontro, um breve encontro para que algo opere.
Nas palavras de Cottet (2005), "a abreviação do tempo seleciona o material. Não se falará de tudo: ali onde 'isso sofre' não é necessariamente onde 'isso fala'. O sujeito se queixa e não compreende; tentamos organizar sua questão, indicando-lhe o assunto a ser tratado, [...] uma direção que favorece a focalização" (p.47). Limita-se, assim, a associação livre, "isola-se o real do sintoma do saber inconsciente, privilegiando o laço a ser restaurado" (p.48) e a antecipação se dá no término fixado (16 sessões ou 4 meses), o que ativa o tempo.
Em "Alocução sobre as psicoses da criança, Jacques Lacan (1967) pergunta: "Qual é a alegria que encontramos no que constitui nosso trabalho?"
Após participar da II Journée de la Fédération International de la Psychanalyse Appliquée (Rennes, 17 de março de 2018) sobre "Os paradoxos da demanda", posso dizer que encontro esta alegria ao retornar aos atendimentos e prosseguir na minha formação permanente extraindo de cada experiência, um ensinamento:
da lógica de cada caso, o que cada um me ensina sobre os mais enigmáticos e diferentes modos de responder ao traumático encontro com a linguagem;
e das Reuniões clinicas de pesquisa e casuística, os efeitos do trabalho que temos realizado no CLAC, inspirados no CPCT como dispositivo inédito inventado por Jaques - Alain Miller (Paris, 2000) que, desde então, é referência para muitas instituições na Europa e na América Latina.

Rio de Janeiro,16 de abril de 2018                        
Bibliografia
Cottet, S. (2005) A aceleração dos efeitos terapêuticos em psicanálise. Efeitos terapêuticos na psicanálise aplicada. Tânia Coelho Org. Rio de Janeiro: Contra Capa Editora.
Freud, S. (1919a). Linhas de progresso na terapia psicanalítica. Obras completas, vol.17. Rio de Janeiro: Imago. 1996.
Freud, S. (1919b). Sobre o ensino da psicanálise nas universidades. Obras completas, vol. 17. Rio de Janeiro: Imago. 1996.
Lacan, J. (1967) Allocution sur les psychoses de l'enfant. Autres écrits. Paris: Seuil. 2001.
Miller, J.A. (2001). Psicanálise pura, psicanálise aplicada & psicoterapia. Revista Phoenix, 3, 9-44.
Miller, J.A. (2005). Efectos terapéuticos rápidos em psicanálise. Conversaciones clónicas con Jacques-Alain Miller en Barcelona. Buenos Aires: Paidós.
Miller, J.A. (2008). Rumo ao PIPOL 4. Correio - Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, n. 60: Clínica e pragmática.