
Entrevista com o psicanalista José Martinho, membro da AMP e presidente da Antena do Campo Freudiano de Lisboa, realizada pela Revista Caliban de Lisboa.
JOSÉ MARTINHO é Membro da Associação Mundial de Psicanálise, da Eurofederação de Psicanálise e da New Lacanian School. Presidente da Antena do Campo Freudiano. Ph. Dr. em Filosofia e Psicologia. Antigo docente das Universidades de Paris XII e Paris VIII. Professor Catedrático reformado. Autor de inúmeros livros e artigos publicados em Portugal e no estrangeiro. Email: jomartinho@yahoo.com
O que é a psicanálise?
Uma invenção. Freud inventou a «coisa» por volta de 1900 porque o objecto eleito pelo seu desejo, a saber a verdade de cada um e mais particularmente a sua verdade lhe escapava. Foi esta fuga do objecto que se tornou a causa efectiva do desejo de Freud e, logo, da psicanálise.
A psicanálise como causa diz respeito a todos os psicanalistas. É ela e não o desejo do sujeito Freud que obriga cada psicanalista a reinventar a psicanálise, ainda que a maioria se limite a repetir algo do feito.
Destaco aqui o nome de Lacan. Este não se identificou a Freud nem a nenhum outro psicanalista. Esta separação permite dizer que foi a causa freudiana do seu desejo que o conduziu a uma renovação inédita da psicanálise.
Voltando a Freud. O amor que este tinha pela verdade levou-o no começo a investigar certas doenças que a ciência não explicava, mas sobretudo a escutar doentes que a medicina não compreendia. Para entender o que diziam bem sobre os seus males acabou por criar aquilo que uma paciente chamou a talking cure.
Esta prática freudiana da palavra foi-se estendendo deformada pelo mundo, e encontramo-la agora por todo o lado nas formas mais diversas, quase sempre de modo pouco visível, como uma força subterrânea marginal ao espaço público e aos meios de comunicação de massa. A certa altura penetrou nas universidades e nos serviços da saúde, mas foi também expulsa de lá. Aparece ainda nas estantes das livrarias, muitas vezes misturada com a literatura de cordel e esotérica, a auto-ajuda e as crónicas femininas. Não se pense no entanto que é em editoras especializadas e eventos culturais de qualidade, ou mesmo em tertúlias intelectuais e mais largamente na internet que a psicanálise mora, pois onde ela se demora é nos divãs dos psicanalistas. O curioso é que estes têm aumentado em grande número e se continua com a impressão que a maioria das pessoas foge deles como dantes fugia do diabo.
Cabe dizer agora que a psicanálise não é uma religião, nem uma qualquer ajuda prosélita. Também não se trata de uma medicina da alma, por exemplo de uma especialidade psicoterapêutica da psicologia clínica. Nem sequer é pertinente incluí-la na área da Saúde Mental, pois o psicanalista não pratica cuidados médicos ou de enfermagem.
Não é necessário entrar em especulações filosóficas para sublinhar a ruptura epistemológica que Freud provocou. Lacan demonstrou que a psicanálise não é uma ciência exacta, natural e social. Ao lembrar que a talking cure freudiana se situa no campo da linguagem, e evidenciar aí a função da fala e a instância da letra, Lacan indicou que a prática psicanalítica converge com a própria natureza do ser humano. É pois com esta que cada um que se implica numa análise terá finalmente de se haver, já que nada o predispõe a aceitar com agrado a sua condição de animal condenado à palavra.
Destacou o nome de Lacan. É conhecida a sua ligação ao ensino deste psicanalista. Podia dizer-nos mais alguma coisa sobre o assunto?
A minha «orientação lacaniana» em matéria de psicanalisar, assim como a minha filiação na Associação Mundial de Psicanálise — à qual pertence hoje a Antena do Campo Freudiano (http://acfportugal.com/), que fundei em Portugal no final dos anos 1980 — , deve-se sobretudo ao facto de ainda pensar que o ensino de Lacan é de longe o melhor para dar conta dos mais bizarros efeitos de significação e satisfação da linguagem sobre a realidade «interna» do organismo físico (pulsão) e psíquico (inconsciente), bem como da realidade «externa» (o mal-estar na civilização). No dia em que conseguir dizer melhor as coisas que Lacan deixarei certamente de ser lacaniano. O problema até agora é que, no meu fraco entender, ainda não encontrei nada que estivesse à altura da enunciação de Lacan.
Ela recorda aos contemporâneos que aquilo que está no início da talking curenão é o ego do analista e sua relação com um objecto, mas a palavra como princípio e meio para chegar ao fim que uma análise se propõe: a transformação da relação do sujeito com o seu sintoma.
Este último é o ponto de partida empírico da prática analítica. O sintoma de que o sujeito se queixa a um analista não é para ser lido como um sinal mórbido, mas como a manifestação da verdade de um ser humano. O sintoma psicanalítico não é pois eliminável. O que se pode transformar é o vínculo não natural, mas trágico, ainda que com facetas cómicas e prazerosas, do sujeito com um sofrimento de que ele não se consegue desembaraçar, que para mais lhe atrapalha a vida e pode levar à sua extinção. Não se trata de maneira nenhuma de suprimir o sintoma, mas de desatar os nós mal atados que o teceram, para reatar os fios da meada de um modo mais satisfatório. O que se procura é fazer com que a má sorte que o sintoma infringe ao sujeito devenha a sorte grande da sua singularidade, a diferença absoluta que só o sintoma confere a cada um.
Em que estado se encontra a psicanálise de orientação lacaniana em Portugal, na Europa e no mundo?
A sua questão exigiria uma resposta tão extensa como o mundo. Teria aliás de reescrever a grande História da Psicanálise. Como não pretendo enveredar pelo que Lacan chamou a «santa farsa» da História, construção que tenta fazer acreditar que o real vai num certo sentido, limitar-me-ei a constatar que, regra geral, os portugueses têm mostrado até agora pouco gosto e apetência pelo ensino de Lacan. Acrescentarei que existem hoje alguns sinais que podem levar a pensar que a situação está a mudar.
O Brasil, país onde se fala também o português, tem no entanto recebido Lacan de braços abertos e ao ritmo do samba. No resto da América do Sul cumpre citar a Argentina, onde a psicanálise lacaniana tem há muito um lugar e um papel social relevante. Na Europa o interesse por Lacan varia muito segundo os países, sendo na França, na Bélgica e na Espanha que tem sido dominante até à data. Em África este interesse é ainda diminuto, mesmo se um dos primeiros lacanianos era de origem egípcia. Em Israel já existe bastante gente a estudar Lacan, que portanto não era judeu. Apesar de haver aí vários lacanianos, nos EUA a main stream psicanalítica é outra, como acontece na Inglaterra e restantes países anglo-saxónicos. A China tem-se aberto desde há alguns anos ao mito individual do neurótico e, a Rússia, a divã o terrível.
Esta nota de humor final para sair das redutoras explicações históricas e socioculturais da implantação da psicanálise em cada país ou continente. Também não me parece suficiente explicar essa implantação pela única extensão política do conceito de «Liberdade», como acontece por exemplo nos Estados democráticos, onde a chamada «liberdade de expressão» constitui um direito fundamental do homem e do cidadão.
Aquilo que se constata desde sempre é que a suposta liberdade de um indivíduo ou de um povo estanca na origem face à angústia e à não-realização do desejo, alienando-se desde logo a Um que os guie, ou a uma Vontade Geral que mostrará cada vez mais ser uma Vontade de Gozo.
Também não dá para acreditar que se sairá deste impasse através de um ideal comunitário de inspiração psicanalítica que traga a felicidade à cidade.
Os que defendem uma «psicanálise da relação» ou «relacional» parecem não se dar conta da utopia que, a realizar-se, se tornaria pesadelo. A dita «relação analítica» é incapaz de constituir um laço social justo e duradoiro, não só porque é radicalmente dissimétrica, mas também porque se confronta com a não-relação sexual entre os parceiros e está votada à dissolução do amor de transferência.
É igualmente por esta razão que os que têm uma orientação lacaniana não pensam a sua «Escola» como um grupo, uma sociedade ou um instituto, mas como um «sujeito suposto saber». Na transferência de trabalho que produz, a Escola é um conjunto inconsistente de solidões subjectivas ou, como disse um dia Jacques-Alain Miller utilizando uma expressão de Carson McCuller, a lonely crowd. Que local do globo gostaria de acolher tais expatriados?
Diria finalmente que o psicanalista não deve militar por um discurso que não minta ou engane, pois todos servem um poder, passado, presente ou futuro. O importante é que, aqui e ali, se formem devidamente analistas que ofereçam condições para que, um a um, haja cada vez mais sujeitos que desejem saber o destino que lhes é traçado pelas suas escolhas forçadas, em vez de passar a maior parte do seu tempo a sonhar, fantasiar ou delirar com Outra coisa.
A política da psicanálise tem esta orientação precisa, pois sabe desde Freud que não há ponto de partida se não sabemos para onde vamos.
Fonte:https://revistacaliban.net/entrevista-3-perguntas-a-jos%C3%A9-martinho-psican%C3%A1lise-51f7fc66cf6