Pornografia e sintoma por Patrícia Guimarães


Rubens, Pieter -  "O rapto das filhas de Leucipo" (1617)
Pornografia e sintoma[i]
Patrícia Guimarães[ii]


O ponto de partida desse trabalho é a citação de Miller sobre a pornografia em seu texto “O inconsciente e o corpo falante”[iii]:
“Nada melhor que a profusão imaginária de corpos se entregando a um “se dar” e a um “se pegar” para mostrar a ausência da relação sexual no real”.
Apesar de estar contida na frase a fundamental distinção entre a profusão imaginária de corpos e a questão da não relação sexual no real esta frase apresentou-se para mim num primeiro momento como portando um enigma, um paradoxo: Como a pornografia serviria para explicitar a não relação sexual? A distinção topológica fundamental que ele aponta passou despercebida por mim na elaboração da questão. Havia algo na frase que só pude reconhecer ao debruçar-me sobre ela, num desejo de saber, quase como num trabalho de análise.
Opto por seguir as indicações que Miller vai dando no texto e inicio o percurso pela preliminar distinção entre a pornografia e o barroco, uma vez que ambos são caracterizados por uma exposição de corpos evocando o gozo.
O primeiro contraponto diz respeito ao coito. Na pornografia o coito é explícito. No barroco é velado. Podemos, também, relacionar a pulsão escópica de duas maneiras diferentes em ambos. Enquanto que o velamento do coito no barroco regula o gozo; o sexo explícito na pornografia o incita, produz um forçamento na direção ao mais-de-gozar.
Lacan[iv] no Seminário 20 aborda essa questão tomando o corpo de Jesus como um paradigma de uma falta de falta. A Jesus não falta nada. Mesmo que ele tenha encarnado um corpo, esse não é corpo atravessado pela linguagem ou por um objeto causa de desejo. Ele é o próprio Deus. Lacan menciona o barroco como um dos efeitos do cristianismo na arte.
O velamento do coito no barroco é interpretado por Lacan como uma interdição. Entretanto, essa interdição que a religião impetra está amparada na verdade universal do pecado, interpretada inteiramente pela via do sentido enquanto que na psicanálise o mistério entre verdade e gozo do falasser, inscrito apenas “para um”, é do registro do real. Esta é a diferença entre a interdição que produz a extração do objeto a causa de desejo como extração de um gozo e uma interdição de um gozo que produz outro gozo. A religião produz o gozo da culpa e do sacrifício enquanto que a psicanálise segue na direção do desejo. Na psicanálise a interdição do incesto marca uma falta, causa de desejo, capaz de erotizar um corpo e implicá-lo na sua relação com o Outro. No barroco essa interdição trata o gozo pulsional pela via do sentido produzindo outras formas de gozo, o da confissão e do sacrifício, por exemplo. Acho importante enfatizar que no barroco essa interdição regula um gozo para produzir outro, enquanto que o tratamento do gozo pulsional na psicanálise visa tomar as vias do desejo.
Já na pornografia encontramos uma perpétua infração. Num dar tudo a ver, sem censura, quer escrever o Real do sexo, abandonando a metáfora, enquanto que no erotismo clássico o véu mantém sua função. Não busca escrever o Real, o contorna. O corpo erotizado é um corpo implicado. Na pornografia o que há é um gozo solitário que prescinde do Outro, pelo menos no que tange ao encontro de corpos que um encontro sexual exige. Miller aponta o pornô como a fantasia filmada com uma variedade própria para satisfazer os apetites perversos em sua diversidade. A fantasia deixa de ser uma construção singular de cada sujeito diante do real do sexo. Ela aparece, então, como uma resposta a esse real em jogo na relação sexual que não existe, em que o sujeito goza de uma fantasia já fabricada para ele e o alivia desse esforço. Miller aponta que a pornografia sendo um resposta à não relação sexual não aparece como uma solução para os impasses da sexualidade, ela é um sintoma e exige interpretação.





[i]  Texto apresentado na Jornada de Cartéis da EBP - Rio em 2017 cujo título era: A pornografia e o axioma lacaniano “a relação sexual não existe”.  
[ii] Psicanalista, integrante da Comissão da biblioteca da seção Rio da EBP e do CLAC.
[iii] MILLER, J.A. O inconsciente e o corpo falante. In: Scilicet – O corpo falante: sobre o inconsciente no século XXI: Escola Brasileira de Psicanálise, Rio de Janeiro, 2016, pág, 21.
[iv] LACAN, J. O Seminário,  livro 20: mais,  ainda (1972-1973), Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008, pág.121.