A teoria dos ciclos e o início de um novo ciclo de atendimentos - Marília Verdussen

Resumo do trecho do livro “Efectos Terapéuticos Rápidos” de J-A Miller.
Marília Verdussen - Psicanalista
Design elaborado por Torolf Sauermann Designs

Na Conversação Clínica do Instituto do Campo Freudiano, realizada em Barcelona no ano de 2005, Miller apresenta um avanço na teoria dos ciclos. Ele propõe pensar na análise em termos de ciclos e, que pode ser interessante encerrá-la após o fim de um ciclo, ou seja, não continuá-la em vários ciclos. Outros analistas presentes se mostram surpreendidos e muito interessados nesta perspectiva que se abre.
A discussão dos ciclos ocorre durante a apresentação de Carmen Garrido sobre um caso atendido por ela na Clínica do Campo Freudiano de La Coruña. Após um atendimento que dura 7 meses, em que houve um efeito terapêutico, a paciente escolhe sair da análise mesmo tendo outra questão importante, não elaborada. Miller pondera que a relação analítica viabiliza uma nova escolha e esse é o trabalho possível no tempo dos atendimentos. Entende que a análise permite realizar uma transição, utilizando o analista não como destino, mas como instrumento. E que o fim após um período curto para os parâmetros habituais pode ter sido mais interessante que continuar uma análise de vários ciclos.
Ideia lançada, diversos participantes da Conversação se manifestam entusiasticamente sobre ela. Horacio Casté diz que ao invés de pensar na análise frustrada, agora precisa pensar em termos de fechar ciclos, em ciclos de fechamento.
Bassols concorda: a análise não se faz de maneira evolutiva ou desenvolvimentista, mas em momentos, em ciclos que se abrem e produzem pontos de não repetição no sujeito. Considera então a brevidade vinculado ao tempo cronológico que permitiria um ciclo mais ou menos breve: isso pode ser um termo operativo no trabalho dos CPCTs, em ciclos de quatro meses.
A Miller não parece conveniente a experiência no CPCT de Paris, que começa e permanece ilimitada. Pensa em um trabalho com limites de doze sessões, em que as três primeiras teriam um objetivo, o diagnóstico e a definição da questão a ser trabalhada. Não seria uma análise esse trabalho, seria um uso da relação de escansões. A experiência analítica pode ser entendida como interminável, algo que tem de se fazer de novo e de novo, mas a concepção que ele propõe é a do terminável, não do indefinido. Pode ser terminável com repetição eventual, mas o trabalho não é feito de maneira indefinida, não é indefinido. Não é uma abertura de questões que nunca se fecham.
Monste Puig coloca que pensar em ciclos também desidealiza e diversifica as conclusões de análise. O caso apresentado exemplifica o uso que um paciente fez do dispositivo, e que a condição de conclusão do ciclo implicou a condição de entrada na análise. Para ele, vale tentar fazer um certo cálculo à entrada do ciclo, uma aposta, que se articularia com algo aberto ao indefinido, afinal pode-se desdobrar algo que não é sabido.
Então a proposta é avançar na teoria dos ciclos na experiência analítica. Não há muitas referências em Lacan e isso não foi desenvolvido no Campo Freudiano até então. Contrapondo à ideia da eternidade após a vida, ideia que pode ser angustiante, a ideia de ciclos permite um certo distanciamento que é apaziguador.
Miller conclui postulando que os CPCTs podem levar o sujeito a realizar seu primeiro ciclo. Pode-se não saber a duração desse primeiro ciclo, mas o contrato é levar o sujeito à conclusão do primeiro ciclo, definido pela questão a ser trabalhada. Um primeiro axioma seria “há sempre um primeiro ciclo”. E um comentário sobre esse primeiro ciclo é que ele há de ser breve. Outro, é que seu tempo é perfeitamente calculável.
Na discussão seguinte da Conversação, as novas ideias fazem pensar a especificidade da terapêutica da psicanálise aplicada a essas intervenções breves. Efeitos rápidos podem ocorrer com qualquer tipo de intervenção psicoterapêutica. Um encontro de qualquer ordem pode produzir um alívio, uma decisão, um desbloqueio sintomático. Nesse momento da conversação, é colocada a questão do uso da transferência e da interpretação como um fundamento da técnica, do como fazer do psicanalista, diferenciando-se de um elemento psicoterapêutico. Há um esforço nesse momento para teorizar a diferença.
Lucia D’Angelo fala de um caso que atende em ciclos. A cada vinda os atendimentos duram somente poucos meses. Em cada ciclo, ela faz uma interpretação que tem um efeito ao tocar no fantasma, fazendo ceder o sintoma.
Ao pensar em foco, Lucia D’Angelo se remete ao foco das terapias breves de Fiorini, aplicadas à rede de assitência argentina para tratamentos mais curtos, baratos e com mais altas. Elas são baseadas no foco - em apagar o foco. Toda terapia focal se desenvolve dentro da cena fenomenológica. Trata-se de situação, compreensão, de iniciativa do terapêuta para enfocar o sintoma, de assumir uma postura calorosa e docente para se implicar pedagogicamente na tarefa. A transferência é no aqui e agora, cumpre função diagnóstica e prognóstica, e é o indicador para entender a história pessoal do paciente.
Para Lacan, não existe uma teoria da técnica. Para ele, a psicoterapia breve produziu desvios da prática freudiana. A transferência não é um recurso técnico, é o que funda não só a direção do tratamento mas a psicanálise mesmo. Lucia d’Angelo afirma que se não há clínica sem ética é porque se trata justamente da transferência e a dimensão fantasmática do sintoma inclui a transferência com o analista.
Miller assinala que a formalização lacaniana não permite nenhum automatismo. A complexidade impede a mecanização. O foco na psicanálise é o objeto pequeno a. Na terapia breve, o foco é na demanda e na cura da demanda. A psicanálise verifica que a associação livre “foca” ao redor do gozo, do gozo insuportável para o sujeito. E o efeito terapêutico rápido visa reduzir o gozo implicado no sintoma, mas mantendo o marco fantasmático. Lucia D’Angelo coloca que a interdependência dos sintomas com o fantasma revela que é suficiente tocar sem deslegitimar o osso do fantasma para produzir um efeito.
A ocasião em que ocorre uma catástrofe sintomática é uma maravilhosa oportunidade para o sujeito estabelecer uma boa análise, relança-lo em um novo ciclo na direção da cura restabelecendo a brevidade no sujeito vivo. Miller pondera ao fim que os casos são paradigmáticos de um novo ciclo político-social da psicanálise

Referência:
MILLER, J-A. Efectos terapéuticos rápidos: conversaciones clínicas con Jacques-Alain Miller en Barcelona. Buenos Aires: Paidós, 2006, pg 99-121.