A FIPA é um conjunto de instituições
composto atualmente de dezesseis Centros Psicanalíticos de Consultas e de
Tratamento (CPCT) e de dezessete iniciativas espontâneas inspiradas pelo CPCT. Disparate em seu funcionamento, essas instituições têm uma referência comum: a Psicanálise Lacaniana, como ela é transmitida pela École de la Cause freudienne. Por outro lado, se essas instituições são organizadas em uma federação, é porque elas compartilham um mesmo objetivo político. Este objetivo é o de uma conexão com
o chamado “social” para cavar um buraco nas práticas psicoterapêuticas propostas
pelo mestre que esmagam o desejo, reduzindo-o a uma demanda. Portanto,
as instituições da FIPA não participam da “coltinagem” da miséria do mundo porque é entrar no discurso que condiciona e colabora.
[1]
O discurso do mundo contemporâneo,
marcado pelo “objeto a ao zênite”, é assustador: a onipresença das telas apelando
o olhar, a injunção “trabalho!” fazendo eco à obrigação do superego de gozar, a infinidade de identificações e escolhas sexuais. Esse pânico tem sua contrapartida:
destruição por desespero, auto-exclusão por desconexão, atos violentos ou suicidas.
A demanda se produz
no momento do encontro das manifestações deste discurso ambiente com a
psicanálise. Quais são as consequências deste encontro?
A psicanalise é parte deste discurso porque não é menos “contemporâneo”. Mas tenta mudar-se apostando em uma ventilação pelo discurso do efeito compressor da civilização. A oferta da palavra é uma proposição para falar sem
prever o que será dito. Esta aposta não significa que tudo possa ser dito. Pelo
contrário, leva suas cartas de nobreza ao indizível, ao que faz “muro” na
comunicação e que mantém o desejo de dizer. É esta a aposta feita nas
instituições da FIPA.
Os paradoxos da
demanda são apenas variações na formulação que Lacan intitulou La lettre d’amur – A carta de amor: “peço-lhe
que me recuse o que eu ofereço, porque não é isso” [2]. A demanda nunca existe em si mesma, isoladamente. É, portanto, uma questão de medir a cada vez a
relação complexa e às vezes recíproca entre a oferta, a demanda e a resposta dada a ela. Porque se a oferta cria a demanda, a resposta a transforma. Em outras palavras, se a demanda depende da estrutura e das condições de vida do
sujeito, ela é determinada principalmente pela recepção da pessoa a quem é
endereçada. O praticante orientado pela psicanálise sabe disso: desde o primeiro
encontro e, às vezes, ao longo do processo, ele próprio faz parte do quadro clínico.
Durante a Jornada da
FIPA 2018, levando em consideração as particularidades das demandas endereçadas
às suas instituições, abordaremos esse tema dos seguintes ângulos: a origem da
demanda, o Outro a quem é endereçada, e a recepção que lhe é dada.
Gil Caroz.
[1] LACAN, J. Televisão, Autres
écrits, Seuil, 2001, p. 517.
[2]LACAN, J. Le séminaire, livre XIX,
… ou pire, Paris, Seuil, 2011, p. 81-82.
