Novos dispositivos de tratamento: Alguns princípios da Psicanálise Aplicada de Orientação lacaniana.
"Estamos na época em que o que mais aparece é o
discurso da ciência (...) constatamos que isso nos colocou a nós, praticantes de
uma tecnologia já antiga, em uma posição conservadora, exceto quando nós mesmos
anunciamos inovações quando mexemos em nosso dispositivo. Por exemplo, nos espaços que abrimos em que
praticamos tratamentos de curta duração,
objetivamente se trata de uma inovação e
que não se parece com o que se praticou no passado em outras orientações. O mais surpreendente quando fazemos esta inovação
não é que não se escutam críticas, senão que não se escute a crítica de
desviacionismo."
Jacques-Alain Miller.
Em "Todo el mundo es loco" - Curso de
Orientação lacaniana (2008-2009).
A experiência analítica
permite a um sujeito que sofre, interrogar o que deseja seu inconsciente. Nessa
experiência, trata-se de elaborar um saber sobre o que determina este
sofrimento. A cura, como o assinala Freud, vem por acréscimo. Na
Psicanálise Pura, o analisante e o analista em secreto, no privado do
consultório, levam a cabo esta experiência. A Psicanálise Aplicada também supõe
esta relação entre analista e analisante. Visto que, esta implica a presença de um
psicanalista e um sujeito, o paciente. Neste caso, pode haver um terceiro
elemento nesse dispositivo, que em geral se dá sob a forma de uma instituição:
um hospital, um posto de saúde, um ambulatório. Este terceiro elemento também
aparece sob a forma de medicamentos, quando se faz necessário. A
Psicanálise Aplicada pode ser praticada, em alguns casos, no consultório do
analista, quando trata-se de uma demanda terapêutica. Ainda que não seja uma
demanda de análise, aquela refere-se a um sofrimento subjetivo do sujeito, portanto, tratamos de acolhê-la.
Alguns princípios fundamentais da Psicanálise
Aplicada de Orientação Lacaniana:
- Primeiro princípio
A Psicanálise Aplicada se inscreve no campo da
Psicanálise. Diferentemente das outras psicoterapias, que não incluem-se neste campo. Podemos dizer que, trata-se de áreas que não tem a
ver com a psicanálise, pois a noção de psicoterapia não se harmoniza com a visão epistêmica da psicanálise.[2] De modo que, as psicoterapias buscam uma adequação às normas da sociedade,
mediante técnicas de sugestão, de educação, de persuasão, e até mesmo, de uma manipulação
efetiva. Aparecem-nos como técnicas destinadas a
corrigir o caráter, ou bem, a dar vazão ao gozo. Nesse sentido, as psicoterapias traçam um discurso em que o sujeito é concebido pelos padrões sociais idealizados. Consideramos este discurso como um discurso do mestre ao qual enfatiza Lacan no "Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise". Um discurso monopolizado e agenciado pelo significante mestre que não se trata do sujeito, em questão. Um discurso, portanto, que não combina com o paradigma psicanalítico. Ao contrário, o discurso psicanalítico, ou melhor, o "discurso do analista" tal como foi compreendido por Lacan, posiciona o analista em uma condição de objeto a, falta-a-ser, que através de seu ato analítico interpela o
sujeito em sua divisão. E com efeito, como um sujeito desejante.
- Segundo princípio
Equipe CLAC
Centro Lacaniano de Atendimento e
Consultas.
[1] Miller,
J. - A. Psychanalise pura, psychanalyse appliqué & psychotérapie.
In: La cause reudiene nº 48,pp.7- 8.
[2] Idem,
p.10.
[3] Lacan,
J. Seminário XXII, Le Sinthome. Edtions du Seuil. Paris, 2004.
[4] Miller, J. - A. (2004) Conversação em Barcelona sobre os Efeitos
terapêuticos rápidos. Paidós, Buenos Aires, 2004.
[5] Conversação clinica realizada no Instituto do Campo Freudiano,
Seção Clínica de Barcelona em fevereiro de 2005.
[6] Miller, J. - A. (2005) “Conversação Clínica de Barcelona”. Paidós,
Buenos Aires, pp.105-109.
