Efeitos terapêuticos rápidos[1]



Os efeitos terapêuticos rápidos são considerados como os novos pontos de capitón (ponto de basta) que a releitura do sintoma pode produzir. Aquilo que nós podemos obter dentro de um ciclo (para diferenciar de tranche, que parece mais apropriada a um conceito de análise como interminável). Partindo da lógica do sintoma enquanto montagem, se trata de extrair de uma cura rápida o significante deste ponto de capitón suscetível de dar ao sujeito um novo ponto de referência. Citação do texto de Jean-Daniel Matet.[2] Um efeito terapêutico rápido pode-se obter pela capitonagem que produz uma releitura do sintoma que não é mais concebido apenas como uma articulação significante que libera uma mensagem, mas como uma montagem de signos que cristalizam o gozo. Aquilo que se mobiliza dentro de uma análise é o que está além da compreensão, a partir do qual um sujeito estará transparente, a saber, o mal-entendido sobre o gozo: ele não é jamais aquilo que o representa. A crença de um sujeito em seu modo de gozar faz parte de suas defesas. Um sujeito pode escolher aí se fixar. O sintoma aponta a singularidade do sujeito e se ele consente a dar outra coisa além de sentido, é o reencontro de suas palavras com seu corpo que então advém. Durante a “Conversação de Barcelona” que precede o Encontro Pipol, J.-A. Miller propõe a noção de “ciclos” que traduzem estas capitonagens sucessivas que direcionam uma cura psicanalítica e lhes atribuem os efeitos terapêuticos que podem surgir a cada volta. Esta indicação nomeada de “currapida” é preciosa para os tratamentos que se pretendem curtos, conferindo sua lógica e assegurando os efeitos terapêuticos no momento de concluir sobre um “contentamento” do sujeito. Não se trata mais aqui de “tranches”, aquela que Freud considerava dentro de uma cura interminável, nem de um benefício terapêutico efêmero, mas de um ciclo que contraria o curto-circuito do fantasma que encobre um gozo, já definido por Lacan. O acento colocado sobre a efetividade do tratamento breve não implica por um lado que ele seja longo, mas acima de tudo que o acento não seja colocado sempre sobre a duração precisa em número de sessões. Não se trata de um dispositivo adaptado que fará das terapias breves ou focais uma prática desvalorizada da Psicanálise.  
A interpretação produzida pelos efeitos terapêuticos rápidos se endereça a Psicanálise mesma, para fazer avançá-la para a operatividade contemporânea e para atualizar uma temporalidade que convenha ao que Lacan chegou a desenvolver no seu último ensino, no Seminário: Le Sinthome, onde ele nos demonstra um novo enfoque dos três registros, imaginário, simbólico e real à maneira do discurso do mestre.  A Clínica muda e os efeitos da experiência psicanalítica com as psicoses não deixa intacto o acesso às neuroses. Isto implica que examinemos o que há de invariável na cura, quer seja o ato do analista ou a transferência.


Equipe CLAC
Centro Lacaniano de Atendimento e Consultas.


Rio de Janeiro, março de 2005.




[1] Comentário extraído da Revista La cause freudienne.2005 pelas praticantes do CLAC.
[2] Jean-Daniel Matet é psiquiatra, praticante hospitalar, responsável pela Unité Clinique Jacques Lacan, psicanalista membro da L’École da Cause Freudienne