Lenita Villafañe
Gomes Bentes
Membro da
Associação Mundial de Psicanálise – AMP; Membro da EBP - Seção Rio.
E-mail: lvgbentes@uol.com.br
Resumo: Este trabalho visa um entendimento entre a
maneira como Charcot viu a histeria e como se pode olhar as formas hoje de
enlouquecer, que muito se misturam também com a histeria. Busco fazer um
contraponto entre épocas distintas e formas de abordagem também distintas. Como
se enlouquece hoje é uma maneira que tem o analista de se interrogar a respeito
da sua prática, da teoria psicanalítica e da sua clínica, ou melhor, uma
maneira de interrogar a clínica no passado e como a clínica atual pode ajudar a
dar um pouco de luz sobre o modo de abordagem das loucuras atuais.
Palavras-chave: Museu, patológico, histeria, psicoses
atuais, função paterna.
Abstract: This work aims at an understanding between the
way Charcot saw hysteria and how one can look at today's forms of madness,
which are also mingled with hysteria. I seek to make a counterpoint between
distinct times and different ways of approach. How to get mad today is a way
for the analyst to question about his practice, the psychoanalytic theory and
his clinic, or rather a way to interrogate the clinic in the past and how the
current clinic can help to give a little of light on how to approach today's
follies.
Keywords: Museum, pathological,
hysteria, current psychoses, parental function.
Como se
enlouquece hoje: o museu patológico vivo
Em “A
invenção da Histeria: Charcot e a iconografia fotográfica da Salpêtrière”[i], escrito por Georges Didi-Huberman,
o “Museu patológico vivo”[ii] intitula o apêndice número
um do referido livro, expressão usada por Jean Marie Charcot ao se referir,
então, à histeria. Extraio uma parte de um parágrafo para indicar o
tratamento que, à época, era dispensado às histéricas consideradas intratáveis,
ou seja, os tratamentos ditos “em
observação”.
“Os serviços que podem ser oferecidos pelos estudos
e pelo ensino feito nestas condições não são de desdenhar, com certeza. Os
tipos clínicos se oferecem à observação, representados por numerosos exemplares
que permitem considerar ao mesmo tempo a afecção, de maneira permanente, por
assim dizer, pois os vazios que se formam com o tempo, nesta ou naquela
categoria, são rapidamente preenchidos. Em outras palavras, estamos de posse de
uma espécie de museu patológico vivo cujos recursos são consideráveis."[iii]
Foi porque a histérica não respondia a nenhum
tratamento, como houve fracasso em todas as tentativas, que surgiu como método
de abordagem às terapêuticas do “por em
observação”. Convulsões, ânimos hiper aquecidos, ímpetos, mulher nervosa,
espasmos. A histérica escapava a todas as tentativas de cura e de diagnóstico
seguro.
Mas onde se aninhava a causa histérica? “Causa de
erros, a histeria era uma bofetada de paradoxos assentada na ininteligibilidade
médica.(...) Seria a loucura?(...) Doença
da paixão?[iv]
Depois veio Charcot e reorganizou as causas da
histeria em agentes provocadores e fatores predisponentes. As causas uterinas
ainda duraram muito tempo como uma doença feminina e dessexualizada. “Neurose
do aparelho reprodutor [...] ou neurose de um imenso aparelho discursivo, que
gerou ‘a mulher’ como imagem especificada e compatível da histeria?”[v].
Levantou-se ainda a hipótese de que a histeria
decorreria de uma farsa. Que ao louco escape sua verdade... Mas que uma mulher
seja capaz de mentir! Isso é inconcebível. Como uma febre pode ser mentira? Aí
está o paradoxo da evidência espetacular. Freud traduziu as aulas de Charcot das terças-feiras,
onde Charcot se perguntava. “Ah, se ao menos soubesse o que existe!”[vi] E Freud não
cessou de se perguntar sobre a existência disto ou daquilo em se tratando da
histeria. Dizia que o mais impressionante era o fato de a histeria ser regida
por pensamentos “eficientes embora
inconscientes”[vii]. A histérica põe
em ato precisamente aquilo que não pode realizar.
Charcot distinguiu a histeria da epilepsia; a
primeira imitava a segunda. Era menos verdadeira, portanto, e menos séria. A
histeria contamina os referenciais nosográficos, a histeria complicava a
epilepsia, mas não deve se confundir com o dar a ver da histérica, e o que
vemos em tempo real, hoje, nas cenas do mundo não nos autoriza nenhuma
equivalência que não seja o dar a ver.
Por várias vezes, ao longo de seu ensino, Lacan
advertiu para os efeitos catastróficos do declínio da função paterna esta,
efeito da usurpação pelo Mercado. No lugar devido ao pai instalou-se o deus Mercado,
o pai não é mais o senhor em sua casa.
A precarização da função do Pai indica que a sua encarnação
é provisória. O Pai está pulverizado, em tempo real, nas múltiplas e nada
duráveis identificações. Tudo é permitido e pode furar a tela fantasmática, que
traz como consequência a passagem ao ato na banalização da violência, na
invasão dos territórios, a que comumente chamamos cidade, no corpo do outro,
nos sites pornográficos, no comércio das crianças, no corpo das mulheres etc.
Trata-se da época do que Lacan denominou, em lugar do Nome-do-Pai, do “nomear
para”[viii], de ser atribuído para
uma função, de aceder a uma posição social. Não importa o quanto ganham, mas o
quanto se é reconhecido a partir de sua função no social. Para tal, a
banalização da vida é cena recorrente, por exemplo, na figura do atravessador
de fronteiras por via terrestre ou marítima, o que naturaliza o comércio de
vidas humanas num êxodo sem precedente na história da civilização.
Este universo amplia mais ainda o vasto campo da
psicose pela via da manipulação dos corpos, que não parte do princípio que se
tem um corpo e não de que se é um corpo.
Nós o temos porque não o somos e o podemos perder. Se a histérica
estranha o corpo, e o macho acha que o tem, no pênis, o psicótico, no
desfazimento do corpo, deve inventar laços que lhe permitam não crer que o é e nem
crer que o tem por seu pênis.
Um conceito, em psicanálise, desde Freud, é
atinente com a maneira como o “falasser” se depara com o não ser e o nomeia.
Mesmo que sempre tenha existido, a psicose ordinária é um efeito[ix] do que não se configurou
no particular, na amarração do sintoma como Nome-do-Pai, que singulariza o gozo
do “falasser”.
A solução desencontrada para se haver com o real, sua
precariedade, hoje, se dá em tempo real como atualização do “Museu patológico vivo”
de Charcot, no século XIX, trazendo tantas indagações quanto a Charcot, o que
nos faz indagar: Como se enlouquece hoje?
Em qualquer época, sempre se enlouquece do Pai. Na
psicose, por sua foraclusão, e na neurose contemporânea, do Pai Mercado, que
empurra os filhos ao gozo dos bens produzindo uma
foraclusão standard do sujeito do inconsciente. A lei do Mercado libera o Pai
do exercício de sua função.
O pai de Schreber preparou-lhe o leito de Procusto
e, ao ajusta-lo ao ideal, deixou de exercer sua função. Durante 51 anos
Schereber manteve-se estável usando um, CMB (compensatory make beleave)[x] para prender-se a seu corpo modelado pelo pai como objeto do capricho do Outro,
como objeto. Miller diz:
“Não existe na verdade o Nome-do-Pai. Ele não
existe, o Nome-do-Pai é um predicado, sempre é um predicado. Sempre é um
elemento especifico entre outros que, para um determinado sujeito, funciona
como Nome-do-Pai. Ao dizerem isso, vocês apagam a diferença entre neurose e
psicose. É uma perspectiva consoante com “Todo mundo é louco à sua maneira””[xi].
O desencadeamento ocorre quando o “fazer crer” cai
é cortado”.12 Schreber torna-se escritor após o desencadeamento. Se
Schreber, depois de 51 anos desencadeou a psicose, o Homem dos Lobos era uma
psicose ordinária com muitas evidencias de neurose.
Outro aspecto de nossa época, também previsto por
Lacan, é a segregação. Neste particular o analista é convocado a considerar
seus efeitos na clínica, ou seja, que o
neurótico consegue maior êxito em compartilhar suas fantasias que o psicótico,
em razão de sua precária inscrição no simbólico.
O psicótico necessita do laço social para que possa
limitar o gozo que o invade. Estamos, então, diante de dois tipos de
segregação. Auto segregação, no caso da psicose, e a segregação de massa, no
universo da neurose, relativa aos refugiados. Para esta existem comitês,
espalhados pelo mundo, prestando acolhimento a esta população. Pagaremos um
alto preço pelos efeitos do desenraizamento da pátria, da língua e dos costumes
a muito curto prazo. Exilar-se é afastar-se da língua materna, dos hábitos com
os quais construímos nosso quotidiano, por fim da pátria como o conjunto de
valores particulares de uma dada comunidade, aí incluída a religião. Como
ocidentalizar um, oriental, por exemplo?
Recentemente, no Núcleo de Psicanalise e Direito da
EBP-Rio, houve uma interessante discussão sobre a segregação da qual extraio
uma fatia:
“Se a universalização tem como efeito a segregação,
resta-nos pensar em uma política anti segregação, ou do singular, que passe
pela responsabilização. A psicanálise pode tratar a discórdia, a segregação,
inevitáveis no ser humano, através do conceito lacaniano de extimidade... Se o
inimigo está dentro de cada um de nós e não fora, a psicanalise propõe a
manejar as discordâncias ao mudara maneira de dizer, no discurso” [xii].
Para concluir devemos olhar nosso Museu Patológico
Vivo democratizando o direito a fala que é por onde podemos dar lugar a
singularidade em tempos de guerra disseminada mundialmente.
[i] DIDI-HUBERMAN, G. (2015) Invenção da histeria: Charcot e a
iconografia fotográfica da Salpêtrière. Rio de Janeiro: Contraponto. (Coleção
Artefíssil)
[ii] Ibid., p. 441.
[iii]IDEM. Ibid.
[iv] Ibid., p. 106-107.
[v] Ibid., p. 108.
[vi] Ibid., p. 106.
[vii] Ibid., p. 112.
[ix]
MILLER, J.-A (2009). “Efeito do retorno à psicose ordinária”. Em: Opção Lacaniana online. Nova série, n.
3. Novembro de 2010. Disponível em: <http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_3/efeito_do_retorno_psicose_ordinaria.pdf
Acesso em 18/7/ 2017.
[x] MILLER,
J.A Opção Lacaniana on line, nova série, ano 1, n 3,
Efeito de retorno sobre a psicose ordinária, pág 20
[xi] Ibid, pág 23
[xii] Ibid
pág 23
[xiii] Núcleo de Psicanalise e Direito, Discussão dia 14/7/2017, texto redigido para
circulação interna.
