Psicanalista. Membro AME da EOL docente do
ICBA- Instituto de Buenos Aires,
Coordenadora de Casuística e coordenadora
do Seminário “O Pequeno Hans”.
Trabalho aqui o tema da
“Casuística”, uma discussão sobre as crianças-amo apelidadas de
crianças-tiranas. Essas crianças é a razão de uma casuística muito diluída,
muito intensa nas consultas de crianças bem pequenas até as maiores. O que é a
tirania destas crianças? Qual é a posição destas crianças? O que essas crianças
ensinam para a psicanálise?
Entendo por todo trabalho que
venho realizando que não seria possível ligá-los a uma estrutura: nem como
psicóticos e nem como perversos - fluo nessa classificação permanentemente.
Parece-me claro que para nos colocarmos diante dessas duas estruturas, não se
trata de estar dentro de uma ou de outra, mas é preciso nos apoiar em uma casuística na qual possamos trabalhar com o ensino de Lacan. Considerando, dessa forma, o que Lacan apontou como uma língua, um gozo, um escabelo, justamente numa época em que ele
trabalhou com a clínica do sintoma, momento que ainda não falava de
estrutura.
As crianças-amo
respondem muito bem ao que foi organizado por Lacan no que consiste o tema
sobre as estruturas e que, posteriormente, Miller desenvolveu apontando a
posição dessas crianças que estariam embrulhadas, envolvidas no Um. Esta
casuística vai nos mostrar que esse tipo de narcisismo ofertado por essas
crianças não refere-se ao conceito de narcisismo mostrado por Freud, tampouco
podemos aproximá-lo das neuroses narcísicas. Cabe-nos investigar, portanto,
qual a posição que este sujeito ocupa frente ao Outro.
As "crianças-amo"
são crianças caprichosas, desenlaçadas da racionalização, apresentam um
raciocínio muito surpreendente. E, por que digo que são desenodados
(desenlaçados) do racional? De acordo com Miller, elas vivem a síndrome
do robotizado pelo significante mestre, isto não quer dizer que não respondem
ao discurso do Outro, nem que por isto sejam psicóticos. Essas crianças não estão fora do
discurso, tampouco podemos dizer que não há o Outro como ocorre para o autista, em que o Outro não existe. Interrogamos, então, de que maneira é esse Outro para
as crianças-amo?
O Outro tem a particularidade
de ter sido destituído muito precocemente. Consiste em uma destituição muito
precoce. A questão de mestre de si mesmo, aparece como uma destituição e como uma certa
precedência do Outro, absolutamente chamativa, porque essas crianças primam
pelo “eu quero” anterior ao “eu penso”.
Desse modo, são crianças
capturadas por esse capricho. Mas como pensar a relação com o Outro? E como
pensar a onipotência e o capricho, de modo que o grau de importância dessas
crianças não é sem a onipotência e sem o capricho de suas mães? Essas crianças
impõe sub-normas, impõe uma tirania de gozo. Por isso falo da tirania
narcisista que Lacan trabalhou e localizo-o com a frase: “o tormento do eu e
o tormento do Outro”. Efetivamente essas crianças são muito tormentosas, porque
prescindem de uma inflação egóica e podem chegar a uma loucura egóica acerca do
culto ao eu, tal como Miller desenvolveu em seu seminário “Os usos do lapso”,
sobre o qual trabalhou muito bem essa noção de loucura egóica relacionada ao culto
do eu.
A ideia de tirania narcisista
trabalhada por Lacan aponta que há um comando de gozo, um imperativo de
comandar e uma exacerbação de gozo. São crianças chamativas e apresentam uma
pregnância em não deixar de gozar. Assim, decidem gozar! Por isso, o “eu quero”
está anterior ao “eu penso”, pois, “eu pulsiono” e "eu faço o que me
impulsiona". Como se a pulsão estivesse sob o comando, ou seja, são comandadas
gozosamente e sem relação com a lei em sua volta. Sua lei é a precedência, não
são crianças que desconhecem a lei. Quando ela entra no trabalho analítico isto
até pode aparecer, mas não aparece como foraclusão do Nome-do-pai. Dito de
outro modo, não há lei para que se comandem. A frase de Lacan é muito
interessante: “não mais amor ao pai, mas amor próprio”, no sentido do amor ao Um.
Esse é um tema que quero
seguir trabalhando, o amor próprio. Se há algo que é um problema nessa
casuística é, justamente, o "não encontrar-se" naquilo que se move em
relação ao Outro. Pois, o Outro não é um Outro com falta, nem aparece como falta.
É um tema bem claro com relação a castração. Um tema muito importante para o
ensino porque se não há um Outro com falta, essas crianças não podem
perguntar-se qual o lugar que elas ocupam para o Outro. Dessa maneira, surgem instaladas em certo lugar que não parece ter sido de uma pergunta ao Outro. Para
poder perguntar ao Outro é preciso ter passado por todos os significantes do
Outro, alienar-se ao significante do Outro, de modo que o sujeito possa fazer
a pergunta: Quem eu sou? Pergunta que efetua-se como um sintoma. No entanto,
essas crianças não apresentam sintomas. O sintoma é o que de alguma maneira se
constrói quando o Um introduz o elemento "positivo" da cura.
O que se apresenta é que
essas crianças não estão ligadas ao dizer. São crianças que não recorrem ao
percurso do grafo do desejo. Quando Lacan mostra o percurso do significante
através do grafo, evidencia-se o percurso do significante em relação ao
significante do Outro, na passagem pelos significantes do Outro, recorrendo a
todos os significantes e se contestando fantasticamente: “Que lugar eu sou para
o desejo do Outro?” - É aí que se dá a passagem pela demanda.
Vou falar da diferença que
penso que acontece com essas crianças: há um curto-circuito no percurso da
demanda, no percurso da pulsão. O que parece agir por conta de algo que aparece
afirmando, sustentando e preservando o Um do gozo. O que ocorre é, justamente,
a separação que não se dá, ou seja, a castração de gozo, e, esses sujeitos não
estão dispostos a perder isso. Por muitos anos e de distintas maneiras, podemos
ver o tipo clínico. Trataremos disto no caso clínico que trouxe.
Vou falar um pouco mais sobre a diferença que se produz na alienação e na
separação. Ao haver a separação pode se construir um objeto em relação ao
Outro: essas crianças fazem um curto-circuito ao passar pela demanda do Outro. Se identificam ao objeto ou se identificam ao significante imaginário, que os
personifica e os representa mostrando o que se passa com S1 e S2 - o que lhes
permitiria que S1 e S2 - um semblante, como se faltasse aí essa articulação.
Essa articulação que também permite um sintoma, porque um sintoma pode-se decifrar, pois o Um não pode ser um significante para outro significante, uma
formação do inconsciente.
Como fazer para articular
esse gozo com relação ao significante? O modo como "se entrega" a
esse gozo é que pode estabelecer o laço com o Outro. O fazer laço com o Outro
se dá através do semblante, pois este é o que permite o laço com o Outro.
A patologia, portanto, não é que o Outro
não existe. O Outro não poderia ser “eu sou eu” e “eu sou o Outro” - para essa
criança, não há duplo. Quando digo que não há objeto do lado do Outro é porque
são crianças que tentam ligar o Outro como testemunho. Mostrando, ao mesmo
tempo, uma posição de desafio, ou seja, uma briga constante com o Outro. Isto
porque, o Outro tem o estatuto da diferença e, nesses casos, é um tema claro: o Outro não ocupa um lugar, ele é tido como testemunho, olhando permanentemente para suas crianças. Há os que dizem até mesmo: o lugar do sujeito suposto saber,
porque realmente são eles (as crianças-amo) que pretendem lograr uma migalha do Outro o tempo
todo, ou seja, ser o objeto olhado. Isto é o que eles logram todo o tempo com os
pais e nos colégios pelos quais passam. Muitos são mandados para os colégios
porque são "ingovernáveis". Porque nas escolas é, justamente, onde a criança pode
aprender quando cede algo desse gozo, algo de se ver para escutar
o Outro.
Parece que no campo do amor
querem o Outro, essas crianças nem cedem seu gozo e se mantém nesse a mais de
gozo. No entanto, aparecem surpreendidos pelo que o Outro pode lhe oferecer em
relação ao saber. Não é que sejam crianças inteligentes - são capazes de
aprender. Há uma destituição do que o Outro pode lhe oferecer com relação ao suposto
saber. Há uma precedência com relação a indiferença. Não é a indiferença de um
autista, por exemplo. Pois, essas crianças sabem que tem ao Outro como
testemunho. Não é que estejam brigando, mas há uma provocação para chamar o
Outro, não porque se importam com o Outro, mas porque "não é certo".
Tenho visto muitos casos em
que a única maneira para o Um funcionar com essas crianças e para
"perturbá-los", porque é difícil perturbá-los. Tenho atendido
crianças "impossíveis" de governar e a única via que poderia
funcionar é quando a mãe evitava o olhar totalmente, ou seja, deixava de
olhar. Tinha uma criança, cuja queixa materna era que ela desconhecia seu comando e para ser atendida, batia com a cabeça na parede cada vez que não
faziam o que ela queria. Outro exemplo, de querer apertar o botão do elevador,
são tiranos. Naquele caso, cada vez que não fazia o que a criança queria, ela batia com a
cabeça na parede. Numa conversa com a mãe, lhe disse para sair do quarto do filho,
para fazer o corte desse gozo, pois ele bate a cabeça quando ela não responde
ao seu desejo.
Estabelecimento do
texto: Maria
Cida Malveira
Rio de janeiro, 17 de
abril de 2015.