Casuística em psicanálise: a criança-amo por Adela Fryd.


Obra do pintor americano Donald Zolan. 

 Adela Fryd.
 Psicanalista. Membro AME da EOL docente do ICBA- Instituto de Buenos Aires,
Coordenadora de Casuística e coordenadora do Seminário “O Pequeno Hans”.

Trabalho aqui o tema da “Casuística”, uma discussão sobre as crianças-amo apelidadas de crianças-tiranas. Essas crianças é a razão de uma casuística muito diluída, muito intensa nas consultas de crianças bem pequenas até as maiores. O que é a tirania destas crianças? Qual é a posição destas crianças? O que essas crianças ensinam para a psicanálise?
Entendo por todo trabalho que venho realizando que não seria possível ligá-los a uma estrutura: nem como psicóticos e nem como perversos - fluo nessa classificação permanentemente. Parece-me claro que para nos colocarmos diante dessas duas estruturas, não se trata de estar dentro de uma ou de outra, mas é preciso nos apoiar em uma casuística na qual possamos trabalhar com o ensino de Lacan. Considerando, dessa forma, o que Lacan apontou como uma língua, um gozo, um escabelo, justamente numa época em que ele trabalhou com a clínica do sintoma, momento que ainda não falava de estrutura.
As crianças-amo respondem muito bem ao que foi organizado por Lacan no que consiste o tema sobre as estruturas e que, posteriormente, Miller desenvolveu apontando a posição dessas crianças que estariam embrulhadas, envolvidas no Um. Esta casuística vai nos mostrar que esse tipo de narcisismo ofertado por essas crianças não refere-se ao conceito de narcisismo mostrado por Freud, tampouco podemos aproximá-lo das neuroses narcísicas. Cabe-nos investigar, portanto, qual a posição que este sujeito ocupa frente ao Outro.
As "crianças-amo" são crianças caprichosas, desenlaçadas da racionalização, apresentam um raciocínio muito surpreendente. E, por que digo que são desenodados (desenlaçados) do racional? De acordo com Miller, elas vivem a síndrome do robotizado pelo significante mestre, isto não quer dizer que não respondem ao discurso do Outro, nem que por isto sejam psicóticos. Essas crianças não estão fora do discurso, tampouco podemos dizer que não há o Outro como ocorre para o autista, em que o Outro não existe. Interrogamos, então, de que maneira é esse Outro para as crianças-amo? 
O Outro tem a particularidade de ter sido destituído muito precocemente. Consiste em uma destituição muito precoce. A questão de mestre de si mesmo, aparece como uma destituição e como uma certa precedência do Outro, absolutamente chamativa, porque essas crianças primam pelo “eu quero” anterior ao “eu penso”.
Desse modo, são crianças capturadas por esse capricho. Mas como pensar a relação com o Outro? E como pensar a onipotência e o capricho, de modo que o grau de importância dessas crianças não é sem a onipotência e sem o capricho de suas mães? Essas crianças impõe sub-normas, impõe uma tirania de gozo. Por isso falo da tirania narcisista que Lacan trabalhou e localizo-o com a frase: “o tormento do eu e o tormento do Outro”. Efetivamente essas crianças são muito tormentosas, porque prescindem de uma inflação egóica e podem chegar a uma loucura egóica acerca do culto ao eu, tal como Miller desenvolveu em seu seminário “Os usos do lapso”, sobre o qual trabalhou muito bem essa noção de loucura egóica relacionada ao culto do eu.
A ideia de tirania narcisista trabalhada por Lacan aponta que há um comando de gozo, um imperativo de comandar e uma exacerbação de gozo. São crianças chamativas e apresentam uma pregnância em não deixar de gozar. Assim, decidem gozar! Por isso, o “eu quero” está anterior ao “eu penso”, pois, “eu pulsiono” e "eu faço o que me impulsiona". Como se a pulsão estivesse sob o comando, ou seja, são comandadas gozosamente e sem relação com a lei em sua volta. Sua lei é a precedência, não são crianças que desconhecem a lei. Quando ela entra no trabalho analítico isto até pode aparecer, mas não aparece como foraclusão do Nome-do-pai. Dito de outro modo, não há lei para que se comandem. A frase de Lacan é muito interessante: “não mais amor ao pai, mas amor próprio”, no sentido do amor ao Um.
Esse é um tema que quero seguir trabalhando, o amor próprio. Se há algo que é um problema nessa casuística é, justamente, o "não encontrar-se" naquilo que se move em relação ao Outro. Pois, o Outro não é um Outro com falta, nem aparece como falta. É um tema bem claro com relação a castração. Um tema muito importante para o ensino porque se não há um Outro com falta, essas crianças não podem perguntar-se qual o lugar que elas ocupam para o Outro. Dessa maneira, surgem instaladas em certo lugar que não parece ter sido de uma pergunta ao Outro. Para poder perguntar ao Outro é preciso ter passado por todos os significantes do Outro, alienar-se ao significante do Outro, de modo que o sujeito possa fazer a pergunta: Quem eu sou? Pergunta que efetua-se como um sintoma. No entanto, essas crianças não apresentam sintomas. O sintoma é o que de alguma maneira se constrói quando o Um introduz o elemento "positivo" da cura.
O que se apresenta é que essas crianças não estão ligadas ao dizer. São crianças que não recorrem ao percurso do grafo do desejo. Quando Lacan mostra o percurso do significante através do grafo, evidencia-se o percurso do significante em relação ao significante do Outro, na passagem pelos significantes do Outro, recorrendo a todos os significantes e se contestando fantasticamente: “Que lugar eu sou para o desejo do Outro?” - É aí que se dá a passagem pela demanda.
Vou falar da diferença que penso que acontece com essas crianças: há um curto-circuito no percurso da demanda, no percurso da pulsão. O que parece agir por conta de algo que aparece afirmando, sustentando e preservando o Um do gozo. O que ocorre é, justamente, a separação que não se dá, ou seja, a castração de gozo, e, esses sujeitos não estão dispostos a perder isso. Por muitos anos e de distintas maneiras, podemos ver o tipo clínico. Trataremos disto no caso clínico que trouxe.
Vou falar um pouco mais sobre a diferença que se produz na alienação e na separação. Ao haver a separação pode se construir um objeto em relação ao Outro: essas crianças fazem um curto-circuito ao passar pela demanda do Outro. Se identificam ao objeto ou se identificam ao significante imaginário, que os personifica e os representa mostrando o que se passa com S1 e S2 - o que lhes permitiria que S1 e S2 - um semblante, como se faltasse aí essa articulação. Essa articulação que também permite um sintoma, porque um sintoma pode-se decifrar, pois o Um não pode ser um significante para outro significante, uma formação do inconsciente.
Como fazer para articular esse gozo com relação ao significante? O modo como "se entrega" a esse gozo é que pode estabelecer o laço com o Outro. O fazer laço com o Outro se dá através do semblante, pois este é o que permite o laço com o Outro.
A patologia, portanto, não é que o Outro não existe. O Outro não poderia ser “eu sou eu” e “eu sou o Outro” - para essa criança, não há duplo. Quando digo que não há objeto do lado do Outro é porque são crianças que tentam ligar o Outro como testemunho. Mostrando, ao mesmo tempo, uma posição de desafio, ou seja, uma briga constante com o Outro. Isto porque, o Outro tem o estatuto da diferença e, nesses casos, é um tema claro: o Outro não ocupa um lugar, ele é tido como testemunho, olhando permanentemente para suas crianças. Há os que dizem até mesmo: o lugar do sujeito suposto saber, porque realmente são eles (as crianças-amo) que pretendem lograr uma migalha do Outro o tempo todo, ou seja, ser o objeto olhado. Isto é o que eles logram todo o tempo com os pais e nos colégios pelos quais passam. Muitos são mandados para os colégios porque são "ingovernáveis". Porque nas escolas é, justamente, onde a criança pode aprender quando cede algo desse gozo, algo de se ver para escutar o Outro.
Parece que no campo do amor querem o Outro, essas crianças nem cedem seu gozo e se mantém nesse a mais de gozo. No entanto, aparecem surpreendidos pelo que o Outro pode lhe oferecer em relação ao saber. Não é que sejam crianças inteligentes - são capazes de aprender. Há uma destituição do que o Outro pode lhe oferecer com relação ao suposto saber. Há uma precedência com relação a indiferença. Não é a indiferença de um autista, por exemplo. Pois, essas crianças sabem que tem ao Outro como testemunho. Não é que estejam brigando, mas há uma provocação para chamar o Outro, não porque se importam com o Outro, mas porque "não é certo".
Tenho visto muitos casos em que a única maneira para o Um funcionar com essas crianças e para "perturbá-los", porque é difícil perturbá-los. Tenho atendido crianças "impossíveis" de governar e a única via que poderia funcionar é quando a mãe evitava o olhar totalmente, ou seja, deixava de olhar. Tinha uma criança, cuja queixa materna era que ela desconhecia seu comando e para ser atendida, batia com a cabeça na parede cada vez que não faziam o que ela queria. Outro exemplo, de querer apertar o botão do elevador, são tiranos. Naquele caso, cada vez que não fazia o que a criança queria, ela batia com a cabeça na parede. Numa conversa com a mãe, lhe disse para sair do quarto do filho, para fazer o corte desse gozo, pois ele bate a cabeça quando ela não responde ao seu desejo.




Estabelecimento do texto: Maria Cida Malveira
Rio de janeiro, 17 de abril de 2015.