Algumas questões sobre o sintoma em Freud por Simone Bianchi.

"Cinzas" da artista Alejandra Popa 
       Simone Bianchi
Psicanalista. Correspondente da EBP-Rio
Mestrado em Psicanálise – Universidade de Paris VIII
Doutoranda do Departamento de Psicanálise- Universidade de Paris VIII
Praticante do CLAC

Resumo: O seguinte ensaio descreve o desenvolvimento do conceito de sintoma, partindo do pensamento anterior a psicanálise quando eram considerados como sinal de desorganização ou disfunção no indivíduo, sendo a sua única forma de tratamento a medicalização. Logo Sigmund Freud descobre que os sonhos, assim como os sintomas, são formações do inconsciente. O sintoma se transforma numa mensagem enigmática, o que o sujeito elege como sua questão singular.
O Sintoma e o recalque
Antes da psicanálise os sintomas psíquicos eram enquadrados como sinal de desorganização ou disfunção no indivíduo, sendo a sua única forma de tratamento a medicalização. Freud descobre que os sonhos, assim como os sintomas, são formações do inconsciente. É por isso que o sintoma é uma mensagem enigmática, o que o sujeito elege como sua questão singular. O sintoma como portador de uma verdade desconhecida pelo sujeito é uma das consequência do recalque.
         O recalque é uma das vicissitudes que podem ocorrer com a pulsão. As observações clínicas de Freud o obrigaram a pensar em dois elementos representativos da pulsão: o ideativo e o afetivo. Eles terão destinos diferentes como representantes pulsionais.                                                         
     O representante ideativo da pulsão, ao se submeter ao recalque, desaparece da consciência. Para o representante afetivo, Freud menciona três vicissitudes possíveis: a supressão, de modo que não se encontra qualquer vestígio dele; “ou aparece como um afeto que de uma maneira ou de outra é qualitativamente colorido; ou transformado em angústia”[i]. Se o recalque não for capaz de impedir sentimentos de desprazer, consideramos que falhou, mesmo que tenha tido êxito em rechaçar a representação ideacional da consciência.
Ao procurar entender o mecanismo do recalque, Freud formula existir duas fases. A primeira fase consiste em negar entrada no consciente ao representante ideacional da pulsão. Logo, ocorre uma fixação, isto é, o conteúdo ideativo em questão permanece inalterado e desde então a pulsão se mantém ligada a ele. Este recalque primário se tornará uma lacuna na vida psíquica, sem deixar, no entanto, de se fazer representar pelo retorno do recalcado. A segunda fase, o recalque propriamente dito, consiste na separação da representação e da carga do afeto de uma ideia.
Encontramos na “Metapsicologia” os sintomas como indícios do retorno do recalcado. Os sintomas, assim como os sonhos, formam-se com a finalidade de realizar um desejo pelo processo de condensação e deslocamento, representando algo e extraindo disso uma satisfação. Esses dois processos são considerados por Freud como os dois mecanismos primários do psiquismo. No processo de condensação, uma idéia pode apropriar-se de toda a catexia de outras idéias, enquanto no processo de deslocamento, uma idéia pode ceder à outra sua quota de catexia. Freud expõe como o recalque se apresenta nos sintomas fóbicos, histéricos e obsessivos. Vejamos cada um deles. 
Ele cita o exemplo de uma fobia animal, dizendo que a moção pulsional sujeita ao recalque é uma atitude libidinal para o pai, ligado ao medo dele. Esse impulso desaparece da consciência após o recalque, onde o pai não se encontra como objeto da libido. O pai é substituído por um animal, que se torna o objeto de angústia. A formação do substituto para a parcela ideacional [do representante pulsional] ocorreu por deslocamento ao passo que a parcela quantitativa não desapareceu, por ter sido transformada em angústia, o que resultou em medo de lobo. Portanto, considera-se que o recalque falhou, visto que o sentimento de desprazer não foi evitado, embora a idéia tenha sido substituída.
          No caso da histeria, o conteúdo ideacional é totalmente retirado da consciência. A área do corpo alterada revela-se como sendo parte do próprio representante pulsional recalcado, verificada através da condensação, atraindo toda a catexia para si própria. Freud escreve:
“A porção assim escolhida para ser um sintoma atende à condição de expressar a finalidade impregnada de desejo da moção pulsional, bem como os esforços defensivos ou punitivos do sistema consciente, no recalque, não precisam ser tão grande quanto a energia catexial do sintoma, pois a força  do recalque é medida pela quantidade de anticatexia despendida, ao passo que o sintoma é sustentado não somente por essa anticatexia, como também pela catexia pulsional oriunda do sistema inconsciente, que se acha condensado no sintoma.”[ii]
Na neurose obsessiva existe uma dúvida em relação a qual representante pulsional está sujeito ao recalque, pois a base, nesse tipo de neurose, é uma regressão, devido à substituição de uma tendência sádica por uma afetiva. É o impulso hostil contra uma pessoa amada que se encontra sujeito ao recalque. Surge no ego, como formação substitutiva, uma alteração sob a forma de maior consciência, porém não se pode nomear tal fato de sintoma. Logo, sintoma e substituto não coincidem. Nesse caso, o recalque afastou a libido primeiramente pelo que Freud chama formação de reação. Freud escreve sobre a obsessão:
          “Aqui, porém, ele fez uso da formação da reação para atingir esse propósito, intensificando um oposto. Assim, nesse caso, a formação de um substituto tem o mesmo mecanismo que o recalque e, no fundo, coincide com ele, ao passo que cronologicamente, tanto quanto conceptualmente, é diferente da formação de um sintoma.”[iii]
A ambivalência que possibilitou que o recalque surgisse através da formação de reação torna-se o ponto pelo qual o recalcado pode retornar. O afeto volta convertido em autocensura ilimitada, como ansiedade moral ou social, enquanto “a ideia rejeitada é substituída por um substituto por deslocamento.”[iv] Como ocorre a falha no recalque do fator quantitativo, é ocasionado o mesmo mecanismo de fuga, por meio de proibições e de evitação, tal como constatamos na formação da fobia. A ideia rejeitada é mantida, apresentando um aprisionamento motor do impulso.
Em 1916, na XVII conferência introdutória sobre psicanálise “O sentido dos sintomas”, Freud cita dois casos clínicos. O primeiro é de uma paciente que tinha o seguinte ato obsessivo: corria de seu quarto até um outro, de forma compulsiva, parava constantemente defronte a uma mesa coberta com uma toalha manchada, chamava a empregada e posicionava-se de modo que a empregada pudesse ver a mancha sobre o centro da toalha. A paciente acabou por relatar a Freud um acontecimento especial. Na noite de núpcias seu marido ficou impotente. Durante a noite, com o objetivo de tentar mais uma vez, ele correu do seu quarto para o dela, mas não teve êxito. No dia seguinte, “ele disse com tristeza: ‘Eu devia sentir-me envergonhado perante a empregada, quando ela arrumar a cama’, pegou de uma garrafa de tinta vermelha que casualmente havia no quarto e derramou seu conteúdo sobre o lençol, mas não no exato lugar em que a mancha viria a calhar.”[v] Freud conclui que sua paciente se identificava com seu marido, fazendo o papel dele. Ela substitui a cama e o lençol pela mesa e a toalha, mas a essência desta cena, aponta Freud, é o chamado à empregada. O ato obsessivo apresentava um sentido, uma representação e uma repetição daquela cena.
O segundo caso exposto trata de um cerimonial prévio ao dormir, onde a paciente estabelece certas tarefas a serem cumpridas, do mesmo modo, diariamente. Ela desligava o relógio grande de seu quarto e todos os outros relógios eram retirados de seu aposento, nem mesmo seu relógio de pulso poderia permanecer dentro de sua cabeceira. Os vasos de flores e os outros vasos eram colocados juntos na escrivaninha de maneira que não caíssem e quebrassem. Ela justificou que precisava de silêncio para dormir, querendo eliminar todas as fontes de ruídos. O travesseiro não podia encostar na cama. O travesseiro menor deveria ser apoiado no maior sob a forma de um diamante.
Freud assinala que o ritual, embora pareça ser estranho, é correlacionado às fantasias que foram descobertas pela interpretação. No cerimonial, foi verificada toda uma série de fantasias, mas que em algum lugar se articulavam em um ponto nodal. As normas do cerimonial em um ponto refletem os desejos sexuais da paciente e, em outro, servem como defesas contra os mesmos.
Das análises das duas pacientes, Freud diz que ambas ficaram presas a uma determinada parte de seu passado, onde algo não foi possível de se realizar, a não ser mais tarde e de forma sintomática. Esses exemplos ilustram a afirmativa de Freud de que “um sintoma é o substituto de alguma coisa que não aconteceu.”[vi] 
Os sintomas são um substituto de algo que foi afastado pelo recalque. Eles servem como satisfação sexual, ou seja, são substitutos da satisfação sexual da qual os pacientes se privam. Assim, o sujeito responde sobre a realidade sexual através dos sintomas. Enfim, os sonhos, os atos falhos e as associações dos pacientes, referentes aos sintomas, contribuem para a descoberta dos sentidos dos sintomas, bem como revelam o modo de distribuição da libido. Freud insiste em dizer que o sentido dos sintomas são derivados das fantasias inconsciente dos pacientes. Na interpretação de um sintoma, então, o sujeito depara-se com um sentido que lhe escapa.
            Ao final da XVII conferência introdutória sobre psicanálise, Freud questiona se existe uma experiência comum a todos os seres humanos em relação à formação dos sintomas. Essa questão será melhor respondida bem mais adiante em sua teorização, a partir do seu artigo: “Inibição, sintoma e ansiedade”, como veremos neste trabalho.
O sintoma e a sua formação
Seguindo o pensamento de Freud, ainda em 1916, na XXIII conferência introdutória sobre psicanálise, “Os caminhos da formação dos sintomas”, é possível assinalar novos pontos da sua teoria sobre os sintomas. Cito a seguinte afirmação: “Os sintomas criam, portanto um substituto da satisfação frustrada realizando uma regressão da libido a épocas de desenvolvimento anteriores, regressão a que necessariamente se vincula um retorno a estádios anteriores de escolha objetal ou de organização.”[vii]
Freud aponta que existiu um período do passado dos pacientes no qual a libido não se privava de satisfação, o que constituirá num ponto onde os pacientes buscam encontrar essa satisfação, favorecendo uma fixação da libido do sujeito. Para Freud, quanto maior for a intensidade da fixação da libido, maior será a regressão desta. Existem dois tipos de regressão: uma que retorna aos objetos primeiramente catexizados pela libido, que, como se sabe, são de caráter incestuoso; e outra que retorna a estádios anteriores de organização sexual.
Assim, os sintomas são um substituto da satisfação frustrada. A frustração ocasiona um conflito em conseqüência do impedimento da satisfação da libido, e esta é forçada a buscar outros caminhos e objetos, mesmo ao preço de um sintoma.
Por que o sujeito escolhe um objeto determinado como substituto de uma realização insatisfatória? Em que poderíamos ver o particular do objeto para cada sujeito? Essa questão suscita o conceito de fantasia.
Freud, em 1911, no texto “Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental”, demonstra que a realidade é sempre fantasiosa e produzida dentro das possibilidades que o recalque permite. Ele aponta como mítica a satisfação buscada como tentativa de reencontrar o objeto. O objeto de fato está perdido, sua busca tem em vista um horizonte necessário, porém impossível de ser alcançado e que, no entanto, é a mola propulsora desta busca insaciável de satisfação.
          Como vimos, os sintomas resultam de um conflito em conseqüência de um novo método de satisfazer a libido. A libido insatisfeita busca outros caminhos para satisfazer-se. Ela, em concordância com o princípio de prazer, procura encontrar uma descarga (satisfação) para suas catexias, retirando-se do ego.
          Em 1912, no artigo “Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor”, podemos sublinhar a relação entre a fantasia e a libido: a libido se afasta da realidade, é substituída pela fantasia, reforça a imagem dos primeiros objetos sexuais e se fixa neles. O obstáculo contra o incesto faz com que a libido que retorna para esses objetos permaneça no inconsciente. Os objetos primevos são substituídos por outros, segundo uma série de condensações e deslocamentos particulares e, em conseqüência disso, as fantasias passam a ser aceitas pela consciência.
          Dessa forma, nos sintomas, encontra-se uma regressão da libido para as fantasias inconscientes, pactuando-se com a censura. “A retração da libido para a fantasia é um estádio intermediário do caminho para a formação dos sintomas.”[viii] Sabe-se que a libido fixa-se num modo de satisfação, que é repetido nos sintomas através das fantasias. As fantasias possuem realidade psíquica em contraste com a realidade material, e é essa realidade psíquica a que se impõe sobre a realidade material. A realidade psíquica é a decisiva. “As fantasias originam-se de uma combinação inconsciente, e conforme determinadas tendências de coisas experimentadas e ouvidas. Essas tendências têm o sentido de tornar inacessível a lembrança da qual emergiram ou poderiam emergir os sintomas.”[ix]
             O período onde não existia privação de satisfação da libido torna-se um ponto no qual os sujeitos procuram encontrar essa satisfação. É por isso que Freud fala que os sintomas repetem a modalidade de satisfação da infância.
          “De algum modo, o sintoma repete essa forma infantil de satisfação, deformada pela censura que surge no conflito, via de regra transformada em uma sensação de sofrimento e mesclada com elementos provenientes da causa precipitante da doença. O tipo de satisfação que o sintoma consegue, tem em si muitos aspectos estranhos ao sintoma.”[x]
Assim, o sintoma e sua satisfação tornam-se algo não reconhecível para o sujeito, permitindo que o mesmo sinta a satisfação como sofrimento, podendo se queixar deste. Essa modificação da satisfação “é uma função do conflito psíquico sob pressão, do qual o sintoma veio a se formar.”[xi] Pode-se acrescentar outro conteúdo que faz com que os sintomas sejam vistos como estranhos e não compreendidos como modo de satisfação libidinal. Eles abandonam os objetos, não levam em conta sua relação com a realidade externa, já que renegaram o princípio de realidade e se voltaram para o princípio de prazer. Da mesma forma, é um modo de auto-erotismo difuso, semelhante à pulsão sexual nas primeiras satisfações. Em vez de uma transformação no mundo externo, ocorre uma substituição das satisfações no próprio corpo do sujeito.
        Enfim, nos sintomas pode-se destacar uma fixação da libido, a qual permite sua formação decorrente de fatos ocorridos e, algumas vezes, devido à representação das fantasias dos sujeitos.  
Por isso, Freud ressalta a importância do desempenho da fantasia na formação dos sintomas. É através dela que a libido mantém ligação com os objetos e as tendências que não foram abandonadas. É por isso também que a libido precisa apenas retrair-se para as fantasias.
Outro aspecto importante nesse mecanismo de formação do sintoma é a relação do ego com a pulsão. O ego vê-se obrigado a renunciar, temporariamente ou definitivamente, a uma diversidade de objetos e de fins aos quais está direcionada sua busca de prazer, não sendo somente sexual. O ego desejou e construiu os sintomas. O ego apóia os sintomas, porque eles “oferecem satisfação ao propósito repressor do ego(...). O ego obtém internamente um certo ganho proveniente da doença.”[xii]
Freud situa a existência de uma experiência pulsional que reivindica satisfação, pelo fato de o ego ter recusado essa satisfação. O ego recusa-a, pois reconhece esta como um perigo. Esse perigo é desviado pelo ego através do recalque. Embora a moção pulsional seja de algum modo afastada e inibida, e seja esquecida sua causa, isso não significa o fim do processo. A pulsão renova sua exigência e, como o caminho à satisfação foi fechado pela cicatriz do recalque, é aberto outro caminho, conhecido como satisfação substitutiva, surgindo como um sintoma.
Segundo Freud, não existe motivo para negar o nome de recalque ao afastamento do ego diante do complexo Edipiano. O recalque dos desejos incestuosos ocorre simultaneamente com a renúncia à fantasia, porém ela retorna disfarçada pelo sintoma, sob a forma de deslocamento e condensação. O retorno do recalcado se apresenta sob a forma de sintomas. “O primeiro motivo para a construção dos sintomas é, cronologicamente, a libido. Portanto, os sintomas, como os sonhos, são a realização de um desejo(...). A construção de sintomas por identificação está ligada às fantasias – isto é ao seu recalcamento.”[xiii]
             Vale ressaltar essa citação de Freud:
“Na época que a mãe se torna o objeto de amor da criança nesta o trabalho psíquico do recalque já começou, trabalho que consiste em uma parte dos fins sexuais subtrair-se ao conhecimento consciente. A essa escolha que a criança faz ao tornar sua mãe o primeiro objeto de seu amor, vincula-se tudo aquilo que, sob o nome de complexo de Édipo, veio a ter tanta importância na explicação psicanalítica das neuroses...”[xiv] 
Podemos marcar que até o momento da XXIII conferência introdutória sobre psicanálise, embora não tenha situado a relação dos sintomas com a castração, Freud nos fala que esta aparece freqüentemente na análise dos pacientes. Essa observação já indica de onde Freud, finalmente, extrai o que ele concebe como a experiência comum a todos os seres humanos, e que está na base da formação dos sintomas.    
O sintoma: Édipo e castração
Em 1926, o artigo “Inibição, sintoma e ansiedade” retoma os conceitos de recalque, ego e pulsão, e os articula de nova forma com o afeto de angústia. Porém, o que mais destacamos nesse artigo é a importância dada a castração como estando no princípio da formação dos sintomas. Vejamos melhor cada um desses itens. Nesse artigo encontramos a seguinte definição sobre sintoma: “um sintoma é um sinal e um substituto de uma satisfação pulsional que permaneceu em estado jacente; é uma conseqüência do processo do recalque”[xv]. Além disso, Freud acrescenta que é a partir do ego que o recalque se processa devido à ordem do superego, o qual se recusa a associar-se com a catexia pulsional do id. A relação do ego e do superego será abordada mais adiante, quando for discutido o complexo de Édipo.
          Freud faz equivaler o recalque a uma tentativa de fuga, descrevendo que a primeira coisa a ser feita é uma retirada da catexia de percepção do objeto perigoso, tornando-o impossível. A catexia retirada é usada com o objetivo de liberar o desprazer, a angústia. Daí, Freud conclui que o ego é a sede real da angústia, sendo esta reproduzida “como um estado afetivo de conformidade com uma imagem mnêmica já existente.”[xvi]
          Freud postula que a pulsão é sempre satisfeita de um jeito ou de outro. O recalque produz um substituto, porém esse não é reconhecível como satisfatório. “Ao rebaixar, assim, um processo de satisfação a um sintoma, o recalque exibe sua força sob outro aspecto.”[xvii] O processo substitutivo é impedido, pois o ego está atuando sob a influência da realidade externa e, portanto, o impede de exercer qualquer efeito sobre aquela realidade. O ego busca evitar o desprazer e se esforça pelo prazer; reconhece que o sintoma veio para ficar, e o que resta é tirar o máximo possível da situação de bom grado. Portanto, o ego comporta-se como se nada tivesse a ver com os sintomas.
O sintoma é o verdadeiro substituto e derivativo do impulso recalcado, e ele continuamente renova suas exigências de satisfação e assim obriga o ego, por sua vez, a dar o sinal de desprazer e a colocar-se em uma posição de defesa. Essa relação entre ego e sintoma se esclarece melhor quando comparada com a relação entre o ego e a inibição, que Freud se empenha em diferenciar do sintoma. Para Freud, a inibição é nada mais nada menos que uma redução de uma determinada função do ego.
          O sintoma estaria mais além da inibição, na medida em que, segundo Freud, uma inibição se submeta a uma alteração inusitada de uma função. Por exemplo: deixar de se locomover, de se alimentar, etc. Ao contrário da inibição, que é uma restrição de uma função do ego, o sintoma se situa fora, como um verdadeiro corpo estranho ao ego.
Mas são as relações entre angústia, castração e sintoma o que será destacado no artigo “Inibição, sintoma e ansiedade”. Neste artigo encontra-se a modificação da teoria da angústia. É a angústia o motor do recalque, não sendo o recalque o que produz a angústia, como Freud tinha pensado anteriormente. É essa afirmação que constitui a virada de sua teoria. “É sempre a atitude de angústia do ego que é a coisa primária e que põe em movimento o recalque”[xviii]. Por isso, a angústia deve ser entendida como um sinal emitido pelo ego para que algo seja feito e impedido. Freud esclarece melhor isso ao retomar o caso de fobia do Little Hans. Vejamos:
       “Mas o afeto de angústia, que era a essência da fobia, proveio, não do processo do recalque, não das catexias libidinais dos impulsos recalcados, mas do próprio agente repressor.  A angústia pertencente às fobias a animais era um medo não transformado de castração. Era portanto, um medo realístico, o medo de um perigo que era realmente iminente ou que era julgado real. Foi a angústia que produziu o recalque e não, como eu anteriormente acreditava, o recalque que produziu a angústia.”[xix] A angústia como sinal está ligada ao recalque propriamente dito de acordo com pensamento freudiano.
Enfim, os sintomas são criados a fim de evitar uma situação de perigo, a qual Freud diz ser a castração ou algo remontável à mesma. O ego anuncia a castração através do sinal da angústia. A castração remete uma reação a uma perda, uma separação. Freud afirma que “seria mais verdadeiro dizer que se criam sintomas a fim de evitar uma situação de perigo cuja presença foi assinalada pela geração de angústia.”[xx]  Como foi citado acima, essa situação de perigo é a castração.
Cabe agora examinar como Freud sempre defendeu o fato de a neurose estar assentada na sexualidade infantil. Como relacionar castração e complexo de Édipo na forma de complexo nuclear das neuroses?
 No texto “Bate-se numa criança”, de 1919, Freud assinala a relação entre o complexo de Édipo e o sintoma com suas próprias palavras: “a sexualidade infantil, que é mantida sob recalque, atua como principal força motivadora na formação dos sintomas; e a parte essencial, o complexo de Édipo, é o complexo nuclear das neuroses.”[xxi]
Em 1924, no artigo “A dissolução do complexo de Édipo”, Freud diz que a ameaça de castração é o que ocasiona a destruição do complexo de Édipo. Sua conclusão sobre o recalque é a de que a força motora deste é o complexo de castração, e as tendências desviadas são do complexo de Édipo.
Freud tomou emprestado o falo, símbolo dos mistérios antigos, para dar conta da crise da sexuação que a criança atravessa no complexo de Édipo. Ele enfatiza que se trata da “primazia do falo” e não da “primazia genital”, como mencionara anteriormente.
A descoberta da falta do pênis materno é associada pela criança como sendo resultado da castração. A criança depara-se, então, “com a tarefa de chegar a um acordo com a castração em relação a si própria.”[xxii]
            Assim, o complexo de castração está intimamente correlacionado com o complexo de Édipo em ambos os sexos, embora em momentos diferentes. O complexo de castração assume papel fundamental na dissolução do complexo de Édipo, determinando a renúncia da criança ao objeto incestuoso. Nas meninas, o complexo de castração apresenta-se, desde o início, incentivando a feminilidade, transferindo investimentos pulsionais da figura materna para a figura paterna. Mais tarde, após a tentativa frustrada de obter uma compensação através da figura paterna, a menina busca uma equivalência simbólica do pênis em um filho. O desejo de um bebê ocupa o lugar do desejo de um pênis. Desse modo, o complexo de Édipo chega em seu último estágio com a tentativa de dar à luz um filho com o pai, desejo este mantido por muito tempo, o que faz com que a mãe torne-se o objeto de seu ciúme. Já os meninos, em conseqüência de estarem apaixonados pela mãe, temem ser punidos pela castração. A possibilidade da falta do pênis nos meninos é vista como uma ameaça paterna, que promove a renúncia ao objeto incestuoso por parte destes. Caso contrário o pai aparece como aquele que vai puni-lo com a castração. Em ambos os sexos a catexia objetal referida à mãe é abandonada com a destruição do complexo Edipiano. Porém, em seu lugar podem ocorrer dois fatos: uma identificação com a mãe ou uma intensa identificação com o pai. Para Freud, nos meninos, o último resultado é visto como o mais normal, porque permite que a relação afetuosa com a mãe seja de algum modo mantida. De maneira análoga, nas meninas, a identificação mais intensa com a figura da mãe constituirá seu caráter feminino. A conclusão de Freud é que a castração conduz ao declínio do Édipo nos meninos, enquanto nas meninas, ao contrário, a castração as introduz no complexo.
             O declínio do complexo de Édipo porta a formação do superego, isto é, o superego surge como herdeiro deste complexo. Iremos estabelecer a relação existente entre o superego e o complexo Edipiano.
          Podemos destacar na XXXI conferência introdutória sobre psicanálise, “A dessecação da personalidade psíquica” o escrito de Freud a respeito da relação entre o superego e o complexo de Édipo. Acompanhemos o que situa Freud: “a instalação do superego pode ser classificada como exemplo bem sucedido de identificação parental. O fato que fala decisivamente a favor deste ponto de vista é que essa nova criação de uma instância superior dentro do ego está intimamente ligada ao destino do complexo de Édipo, de modo que o superego surge como o herdeiro dessa vinculação afetiva tão importante para a infância.”[xxiii]
          Freud menciona que o superego mantém o caráter paterno. Ele situa que na origem do superego encontra-se a identificação com a figura paterna, considerando esta identificação como a mais importante na vida do sujeito. Trata-se de uma instância que se instala através de uma identificação sucedida com a figura do pai. O superego tem a função de punir e proibir as satisfações provenientes do id.
Em 1923, no artigo “O ego e o id”, Freud assinala o aspecto duplo do superego em sua relação com o ego: "O superego, contudo não é simplesmente resíduo das primeiras escolhas objetais do id; ele também representa uma formação enérgica contra essas escolhas. A sua relação com o ego não se exaure com o preceito: você deveria ser assim (como o seu pai). Ela também compreende a proibição: você não pode ser assim (como o seu pai), isto é, você não pode fazer tudo o que ele faz; certas coisas são prerrogativas dele.”[xxiv] 
           Buscando esclarecer esta face dupla do superego em relação ao ego, Freud a relaciona ao fato de o ego empreender o recalque do complexo Edipiano. O pai aparece como obstáculo à realização dos desejos incestuosos, portanto leva o ego infantil a se fortalecer para executar o recalque “erguendo esse mesmo obstáculo dentro de si próprio.”[xxv] Assim, a função paterna implica numa posição do sujeito em relação ao complexo de Édipo e de castração.
            Freud formula a hipótese de que o superego “descreve uma relação estrutural” no aparelho psíquico, contudo ele não aborda melhor essa questão nos artigos revistos neste trabalho.
Voltando ao artigo “Inibição, sintoma e ansiedade”, poder-se-ia pensar que o questionamento de Freud em 1916, na XVII conferência introdutória sobre psicanálise, “o sentido dos sintomas”, sobre a possibilidade de os sintomas remontarem a uma experiência comum a todos os seres humanos, poderia estar sendo respondido no artigo “Inibição, sintoma e ansiedade”, se considerarmos que esta experiência é o complexo de castração.
Na XVII conferência introdutória sobre psicanálise, vimos que os sintomas têm um sentido e, se conectam com a vida dos pacientes. Inicialmente, Freud formula que após os pacientes descobrirem o sentido de seus sintomas, os mesmos desapareciam. Porém, mais tarde, ele observa na clínica que os sintomas se repetem, o que o levou a pensar no “Além do princípio de prazer”. Pode-se mencionar a citação de Freud no seu artigo “Além do princípio do prazer”, onde ele evoca a defasagem existente entre a satisfação obtida e a satisfação esperada, incidindo à repetição. Do mesmo modo, pode-se evocar seu artigo de 1911, “Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental”, no qual Freud descreve como mítica a satisfação visada em reencontrar o objeto. De fato, o objeto está perdido, e por ser perdido é capaz de suscitar o desejo do reencontro. É a impossibilidade de ser alcançado que faz com que ele se torne a mola propulsora desta busca insaciável de satisfação.
No artigo “Além do princípio do prazer”, encontramos a descrição da brincadeira de uma criança, onde o menino usava um carretel amarrado por um cordão, fazendo-o desaparecer e reaparecer, tornando-se assim um jogo repetitivo. O prazer maior era ligado ao segundo momento, ou seja, ao retorno. A interpretação do jogo, para Freud, refere-se à renúncia pulsional que a criança realizou ao deixar sua mãe ir embora sem reclamar. O menino efetuava o desaparecimento e a volta do brinquedo como um modo de compensação.  Freud marca que a repetição que ocorria na brincadeira só foi possível de se realizar porque ela trazia a produção de prazer de outro tipo.
Encontramos em Freud uma citação importante relativa à questão da repetição: “A pulsão recalcada nunca deixa de esforçar-se em busca de umas satisfações completas, que consistiria na repetição de uma experiência primária de satisfação(...). O prazer da satisfação que é exigida e a que é realmente conseguida, é que fornece o fator impulsionador ...”[xxvi] dessa busca constante. Logo, podemos concluir que os sintomas se repetem na clínica, pois a satisfação obtida não coincide com a satisfação visada.
Sintoma e transferência
Ao mesmo tempo em que a experiência psicanalítica pretende tratar o sintoma, é esta mesma experiência que o cria e o instala como sintoma analítico. Nesta, perspectiva encontramos a articulação do sintoma com a transferência. O sintoma analítico é transferencial e a transferência, por sua vez, é o que permite sua instauração. Como diz Freud: “Nossa experiência demonstrou que a relação da transferência, que se estabelece com o pela seleção do que é obscuro e desconhecido na própria história do paciente. Nisto, vemos uma escolha inconsciente que já é dirigida àquele analista. Portanto, o sintoma, para a psicanálise, não é aquilo que permite reunir e identificar tipos de sofrimentos comuns a muitas pessoas. O sintoma psicanalítico é o que um sujeito elege como sua questão, própria e singular em seu endereçamento transferencial ao analista”.
           Na XVII conferência introdutória sobre psicanálise, “A transferência”, Freud escreve: “Pode-se dizer que nossa convicção da importância dos sintomas como satisfações substitutivas da libido teve sua confirmação final só após a inclusão da transferência.”. Os sintomas, assim como a transferência, ocorrem como resultado do retorno do recalcado. Enfim, a libido passa do sintoma à transferência, da transferência à cura e a cura torna-se produtora de satisfação.
            Embora a análise trate o sintoma, isto não quer dizer que este seja abolido. O sintoma é movido pelo desejo, assim como o desejo move o inconsciente. Podemos nos perguntar: o que se espera de uma análise em relação ao sintoma? Que o sintoma de entrada seja transformado e que permita, ao final, uma nova articulação com o desejo contido nele, desejo este inconsciente, que se fazia representar pelo sintoma de maneira deformada. A experiência analítica descobre que a supressão do sintoma não implica sua cura, ao contrário, pode supor um agravamento do mal estar do sujeito, o que Freud chamou de reação terapêutica negativa. O mal estar implicado no sintoma é ignorado pelo o discurso da ciência, na medida em que classifica os sintomas sem levar em consideração a dimensão subjetiva particular do sujeito. A psicanálise espera que o sujeito apreenda algo do ser do seu sintoma, para articulá-lo de outro modo. Neste sentido, é preciso que o sujeito adquira um “saber fazer” com o seu sintoma.




NOTAS:
[i] Freud, S. “Metapsicologia” (1915). Em: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996, Vol. XIV, p.158.
[ii] Idem, p.189.
[iii] Idem, p.161.
[iv] Idem, p.161.
[v] Freud, S. “O sentido dos sintomas” (1916). Em: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996, Vol. XVI, p.269.
[vi] Freud, S. “Fixação em traumas – O inconsciente” (1916). Em: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996, Vol. XVI, p.287.
[vii] Freud, S. “Os caminhos da formação dos sintomas” (1916). Em: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996, Vol. XVI, p.367.
[viii] Idem, p.375.
[ix] Freud, S. “Rascunho M” (1987). Em: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996, Vol .I, p.301.
[x] Freud, S. “Os caminhos da formação dos sintomas” (1916). Em: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996, Vol. XVI, p.368.
[xi] Idem, p.368.
[xii] Freud, S. “O estado neurótico comum” (1916). Em: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996, Vol.  XVI, p.383.
[xiii] Freud, S. “Rascunho N” (1987). Em: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996, Vol.I, p.307.
[xiv]Freud, S. “O desenvolvimento da libido e as organizações sexuais” (1916). Em: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996, Vol. XVI, p.333.
[xv] Freud, S. Inibição, sintoma e ansiedade” (1926). Em: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996, Vol. XX, p.95.
[xvi] Idem, p.97.
[xvii] Idem, p.98.
[xviii] Idem, p.111.
[xix] Idem, p.111.
[xx] Idem, p.142.
[xxi] Freud, S. “Uma criança é espancada: uma contribuição ao estudo da origem das perversões sexuais” (1919). Em: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996, Vol. XVII, p.218.
[xxii] Freud, S. “A organização genital infantil” (1923). Em: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996, Vol. XIX, p.159.
[xxiii] Freud, S. “Novas conferências introdutórias sobre a psicanálise” (1933). Em: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996, Vol. XXII, p.69.
[xxiv] Freud, S. “O ego e o id” (1923). Em: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996, Vol. XIX, p.47.
[xxv] Idem, p.47.
[xxvi] Freud, S. “Além do princípio do prazer” (1920). Em: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996, Vol. XVIII, p.53.