Psicanalista. Correspondente da EBP-Rio
Mestrado em Psicanálise – Universidade de Paris VIII
Doutoranda do Departamento de Psicanálise- Universidade
de Paris VIII
Praticante do CLAC
Resumo: O seguinte ensaio
descreve o desenvolvimento do conceito de sintoma, partindo do pensamento anterior a psicanálise quando eram considerados como sinal de desorganização ou
disfunção no indivíduo, sendo a sua única forma de tratamento a medicalização.
Logo Sigmund Freud descobre que os sonhos, assim como os sintomas, são
formações do inconsciente. O sintoma se transforma numa mensagem enigmática, o
que o sujeito elege como sua questão singular.
O Sintoma e o recalque
Antes da psicanálise os sintomas psíquicos eram enquadrados como sinal
de desorganização ou disfunção no indivíduo, sendo a sua única forma de tratamento
a medicalização. Freud descobre que os sonhos, assim como os sintomas, são
formações do inconsciente. É por isso que o sintoma é uma mensagem enigmática,
o que o sujeito elege como sua questão singular. O sintoma como portador de uma
verdade desconhecida pelo sujeito é uma das consequência do recalque.
O recalque é uma das vicissitudes
que podem ocorrer com a pulsão. As observações clínicas de Freud o obrigaram a
pensar em dois elementos representativos da pulsão: o ideativo e o afetivo.
Eles terão destinos diferentes como representantes pulsionais.
O representante ideativo da pulsão, ao se submeter ao recalque,
desaparece da consciência. Para o representante afetivo, Freud menciona três
vicissitudes possíveis: a supressão, de modo que não se encontra qualquer
vestígio dele; “ou aparece como um afeto que de uma maneira ou de outra é
qualitativamente colorido; ou transformado em angústia”[i].
Se o recalque não for capaz de impedir sentimentos de desprazer, consideramos
que falhou, mesmo que tenha tido êxito em rechaçar a representação ideacional
da consciência.
Ao procurar entender o mecanismo do recalque, Freud formula existir duas
fases. A primeira fase consiste em negar entrada no consciente ao representante
ideacional da pulsão. Logo, ocorre uma fixação, isto é, o conteúdo ideativo em questão
permanece inalterado e desde então a pulsão se mantém ligada a ele. Este
recalque primário se tornará uma lacuna na vida psíquica, sem deixar, no
entanto, de se fazer representar pelo retorno do recalcado. A segunda fase, o
recalque propriamente dito, consiste na separação da representação e da carga
do afeto de uma ideia.
Encontramos na “Metapsicologia” os sintomas como indícios do retorno do
recalcado. Os sintomas, assim como os sonhos, formam-se com a finalidade de
realizar um desejo pelo processo de condensação e deslocamento, representando
algo e extraindo disso uma satisfação. Esses dois processos são considerados
por Freud como os dois mecanismos primários do psiquismo. No processo de
condensação, uma idéia pode apropriar-se de toda a catexia de outras idéias,
enquanto no processo de deslocamento, uma idéia pode ceder à outra sua quota de
catexia. Freud expõe como o recalque se apresenta nos sintomas fóbicos,
histéricos e obsessivos. Vejamos cada um deles.
Ele cita o exemplo de uma fobia animal, dizendo que a moção pulsional
sujeita ao recalque é uma atitude libidinal para o pai, ligado ao medo dele.
Esse impulso desaparece da consciência após o recalque, onde o pai não se
encontra como objeto da libido. O pai é substituído por um animal, que se torna
o objeto de angústia. A formação do substituto para a parcela ideacional [do
representante pulsional] ocorreu por deslocamento ao passo que a parcela
quantitativa não desapareceu, por ter sido transformada em angústia, o que
resultou em medo de lobo. Portanto, considera-se que o recalque falhou, visto
que o sentimento de desprazer não foi evitado, embora a idéia tenha sido
substituída.
No caso da histeria, o conteúdo ideacional é totalmente
retirado da consciência. A área do corpo alterada revela-se como sendo parte do
próprio representante pulsional recalcado, verificada através da condensação,
atraindo toda a catexia para si própria. Freud escreve:
“A porção assim escolhida para ser um sintoma atende à condição de
expressar a finalidade impregnada de desejo da moção pulsional, bem como os
esforços defensivos ou punitivos do sistema consciente, no recalque, não
precisam ser tão grande quanto a energia catexial do sintoma, pois a força do recalque é medida pela quantidade de
anticatexia despendida, ao passo que o sintoma é sustentado não somente por
essa anticatexia, como também pela catexia pulsional oriunda do sistema
inconsciente, que se acha condensado no sintoma.”[ii]
Na neurose obsessiva existe uma dúvida em relação a
qual representante pulsional está sujeito ao recalque, pois a base, nesse tipo
de neurose, é uma regressão, devido à substituição de uma tendência sádica por
uma afetiva. É o impulso hostil contra uma pessoa amada que se encontra sujeito
ao recalque. Surge no ego, como formação substitutiva, uma alteração sob a
forma de maior consciência, porém não se pode nomear tal fato de sintoma. Logo,
sintoma e substituto não coincidem. Nesse caso, o recalque afastou a libido
primeiramente pelo que Freud chama formação de reação. Freud escreve sobre a
obsessão:
“Aqui,
porém, ele fez uso da formação da reação para atingir esse propósito,
intensificando um oposto. Assim, nesse caso, a formação de um substituto tem o
mesmo mecanismo que o recalque e, no fundo, coincide com ele, ao passo que
cronologicamente, tanto quanto conceptualmente, é diferente da formação de um
sintoma.”[iii]
A ambivalência que possibilitou que o recalque
surgisse através da formação de reação torna-se o ponto pelo qual o recalcado
pode retornar. O afeto volta convertido em autocensura ilimitada, como
ansiedade moral ou social, enquanto “a ideia rejeitada é substituída por um
substituto por deslocamento.”[iv]
Como ocorre a falha no recalque do fator quantitativo, é ocasionado o mesmo
mecanismo de fuga, por meio de proibições e de evitação, tal como constatamos
na formação da fobia. A ideia rejeitada é mantida, apresentando um
aprisionamento motor do impulso.
Em 1916, na XVII conferência introdutória sobre
psicanálise “O sentido dos sintomas”, Freud cita dois casos clínicos. O
primeiro é de uma paciente que tinha o seguinte ato obsessivo: corria de seu
quarto até um outro, de forma compulsiva, parava constantemente defronte a uma
mesa coberta com uma toalha manchada, chamava a empregada e posicionava-se de
modo que a empregada pudesse ver a mancha sobre o centro da toalha. A paciente
acabou por relatar a Freud um acontecimento especial. Na noite de núpcias seu
marido ficou impotente. Durante a noite, com o objetivo de tentar mais uma vez,
ele correu do seu quarto para o dela, mas não teve êxito. No dia seguinte, “ele
disse com tristeza: ‘Eu devia sentir-me envergonhado perante a empregada,
quando ela arrumar a cama’, pegou de uma garrafa de tinta vermelha que
casualmente havia no quarto e derramou seu conteúdo sobre o lençol, mas não no
exato lugar em que a mancha viria a calhar.”[v]
Freud conclui que sua paciente se identificava com seu marido, fazendo o papel
dele. Ela substitui a cama e o lençol pela mesa e a toalha, mas a essência
desta cena, aponta Freud, é o chamado à empregada. O ato obsessivo apresentava
um sentido, uma representação e uma repetição daquela cena.
O segundo caso exposto trata de um cerimonial prévio ao dormir, onde a
paciente estabelece certas tarefas a serem cumpridas, do mesmo modo,
diariamente. Ela desligava o relógio grande de seu quarto e todos os outros
relógios eram retirados de seu aposento, nem mesmo seu relógio de pulso poderia
permanecer dentro de sua cabeceira. Os vasos de flores e os outros vasos eram
colocados juntos na escrivaninha de maneira que não caíssem e quebrassem. Ela
justificou que precisava de silêncio para dormir, querendo eliminar todas as
fontes de ruídos. O travesseiro não podia encostar na cama. O travesseiro menor
deveria ser apoiado no maior sob a forma de um diamante.
Freud assinala que o ritual, embora pareça ser estranho, é
correlacionado às fantasias que foram descobertas pela interpretação. No
cerimonial, foi verificada toda uma série de fantasias, mas que em algum lugar
se articulavam em um ponto nodal. As normas do cerimonial em um ponto refletem
os desejos sexuais da paciente e, em outro, servem como defesas contra os
mesmos.
Das análises das duas pacientes, Freud diz que ambas ficaram presas a
uma determinada parte de seu passado, onde algo não foi possível de se
realizar, a não ser mais tarde e de forma sintomática. Esses exemplos ilustram
a afirmativa de Freud de que “um sintoma é o substituto de alguma coisa que não
aconteceu.”[vi]
Os sintomas são um substituto de algo que foi afastado pelo recalque.
Eles servem como satisfação sexual, ou seja, são substitutos da satisfação
sexual da qual os pacientes se privam. Assim, o sujeito responde sobre a
realidade sexual através dos sintomas. Enfim, os sonhos, os atos falhos e as
associações dos pacientes, referentes aos sintomas, contribuem para a
descoberta dos sentidos dos sintomas, bem como revelam o modo de distribuição
da libido. Freud insiste em dizer que o sentido dos sintomas são derivados das
fantasias inconsciente dos pacientes. Na interpretação de um sintoma, então, o
sujeito depara-se com um sentido que lhe escapa.
Ao final da XVII conferência introdutória sobre
psicanálise, Freud questiona se existe uma experiência comum a todos os seres
humanos em relação à formação dos sintomas. Essa questão será melhor respondida
bem mais adiante em sua teorização, a partir do seu artigo: “Inibição, sintoma
e ansiedade”, como veremos neste trabalho.
O sintoma e a sua formação
Seguindo o pensamento de Freud, ainda em 1916, na XXIII conferência
introdutória sobre psicanálise, “Os caminhos da formação dos sintomas”, é
possível assinalar novos pontos da sua teoria sobre os sintomas. Cito a
seguinte afirmação: “Os sintomas criam, portanto um substituto da satisfação
frustrada realizando uma regressão da libido a épocas de desenvolvimento anteriores,
regressão a que necessariamente se vincula um retorno a estádios anteriores de
escolha objetal ou de organização.”[vii]
Freud aponta que existiu um período do passado dos pacientes no qual a
libido não se privava de satisfação, o que constituirá num ponto onde os
pacientes buscam encontrar essa satisfação, favorecendo uma fixação da libido
do sujeito. Para Freud, quanto maior for a intensidade da fixação da libido,
maior será a regressão desta. Existem dois tipos de regressão: uma que retorna
aos objetos primeiramente catexizados pela libido, que, como se sabe, são de
caráter incestuoso; e outra que retorna a estádios anteriores de organização
sexual.
Assim, os sintomas são um substituto da satisfação frustrada. A
frustração ocasiona um conflito em conseqüência do impedimento da satisfação da
libido, e esta é forçada a buscar outros caminhos e objetos, mesmo ao preço de
um sintoma.
Por que o sujeito escolhe um objeto determinado como substituto de uma
realização insatisfatória? Em que poderíamos ver o particular do objeto para
cada sujeito? Essa questão suscita o conceito de fantasia.
Freud, em 1911, no texto “Formulações sobre os dois princípios do
funcionamento mental”, demonstra que a realidade é sempre fantasiosa e
produzida dentro das possibilidades que o recalque permite. Ele aponta como
mítica a satisfação buscada como tentativa de reencontrar o objeto. O objeto de
fato está perdido, sua busca tem em vista um horizonte necessário, porém
impossível de ser alcançado e que, no entanto, é a mola propulsora desta busca
insaciável de satisfação.
Como vimos, os sintomas resultam de um
conflito em conseqüência de um novo método de satisfazer a libido. A libido
insatisfeita busca outros caminhos para satisfazer-se. Ela, em concordância com
o princípio de prazer, procura encontrar uma descarga (satisfação) para suas
catexias, retirando-se do ego.
Em 1912, no artigo “Sobre a tendência
universal à depreciação na esfera do amor”, podemos sublinhar a relação entre a
fantasia e a libido: a libido se afasta da realidade, é substituída pela
fantasia, reforça a imagem dos primeiros objetos sexuais e se fixa neles. O
obstáculo contra o incesto faz com que a libido que retorna para esses objetos
permaneça no inconsciente. Os objetos primevos são substituídos por outros, segundo
uma série de condensações e deslocamentos particulares e, em conseqüência
disso, as fantasias passam a ser aceitas pela consciência.
Dessa
forma, nos sintomas, encontra-se uma regressão da libido para as fantasias
inconscientes, pactuando-se com a censura. “A retração da libido para a
fantasia é um estádio intermediário do caminho para a formação dos sintomas.”[viii]
Sabe-se que a libido fixa-se num modo de satisfação, que é repetido nos
sintomas através das fantasias. As fantasias possuem realidade psíquica em
contraste com a realidade material, e é essa realidade psíquica a que se impõe
sobre a realidade material. A realidade psíquica é a decisiva. “As fantasias
originam-se de uma combinação inconsciente, e conforme determinadas tendências
de coisas experimentadas e ouvidas. Essas tendências têm o sentido de tornar
inacessível a lembrança da qual emergiram ou poderiam emergir os sintomas.”[ix]
O período onde não existia privação de satisfação
da libido torna-se um ponto no qual os sujeitos procuram encontrar essa
satisfação. É por isso que Freud fala que os sintomas repetem a modalidade de
satisfação da infância.
“De algum modo, o sintoma repete essa forma infantil de
satisfação, deformada pela censura que surge no conflito, via de regra
transformada em uma sensação de sofrimento e mesclada com elementos
provenientes da causa precipitante da doença. O tipo de satisfação que o
sintoma consegue, tem em si muitos aspectos estranhos ao sintoma.”[x]
Assim, o sintoma e sua satisfação tornam-se algo não reconhecível para o
sujeito, permitindo que o mesmo sinta a satisfação como sofrimento, podendo se
queixar deste. Essa modificação da satisfação “é uma função do conflito
psíquico sob pressão, do qual o sintoma veio a se formar.”[xi]
Pode-se acrescentar outro conteúdo que faz com que os sintomas sejam vistos
como estranhos e não compreendidos como modo de satisfação libidinal. Eles
abandonam os objetos, não levam em conta sua relação com a realidade externa,
já que renegaram o princípio de realidade e se voltaram para o princípio de
prazer. Da mesma forma, é um modo de auto-erotismo difuso, semelhante à pulsão
sexual nas primeiras satisfações. Em vez de uma transformação no mundo externo,
ocorre uma substituição das satisfações no próprio corpo do sujeito.
Enfim, nos sintomas pode-se destacar uma fixação da libido,
a qual permite sua formação decorrente de fatos ocorridos e, algumas vezes,
devido à representação das fantasias dos sujeitos.
Por isso, Freud ressalta a importância do desempenho da fantasia na
formação dos sintomas. É através dela que a libido mantém ligação com os
objetos e as tendências que não foram abandonadas. É por isso também que a
libido precisa apenas retrair-se para as fantasias.
Outro aspecto importante nesse mecanismo de formação do sintoma é a
relação do ego com a pulsão. O ego vê-se obrigado a renunciar, temporariamente
ou definitivamente, a uma diversidade de objetos e de fins aos quais está
direcionada sua busca de prazer, não sendo somente sexual. O ego desejou e
construiu os sintomas. O ego apóia os sintomas, porque eles “oferecem satisfação
ao propósito repressor do ego(...). O ego obtém internamente um certo ganho
proveniente da doença.”[xii]
Freud situa a existência de uma experiência pulsional que reivindica
satisfação, pelo fato de o ego ter recusado essa satisfação. O ego recusa-a,
pois reconhece esta como um perigo. Esse perigo é desviado pelo ego através do
recalque. Embora a moção pulsional seja de algum modo afastada e inibida, e
seja esquecida sua causa, isso não significa o fim do processo. A pulsão renova
sua exigência e, como o caminho à satisfação foi fechado pela cicatriz do
recalque, é aberto outro caminho, conhecido como satisfação substitutiva,
surgindo como um sintoma.
Segundo Freud, não existe motivo para negar o nome de recalque ao
afastamento do ego diante do complexo Edipiano. O recalque dos desejos
incestuosos ocorre simultaneamente com a renúncia à fantasia, porém ela retorna
disfarçada pelo sintoma, sob a forma de deslocamento e condensação. O retorno
do recalcado se apresenta sob a forma de sintomas. “O primeiro motivo para a
construção dos sintomas é, cronologicamente, a libido. Portanto, os sintomas,
como os sonhos, são a realização de um desejo(...). A construção de sintomas
por identificação está ligada às fantasias – isto é ao seu recalcamento.”[xiii]
Vale ressaltar essa citação de Freud:
“Na época que a mãe se torna o objeto de amor da criança nesta o
trabalho psíquico do recalque já começou, trabalho que consiste em uma parte
dos fins sexuais subtrair-se ao conhecimento consciente. A essa escolha que a
criança faz ao tornar sua mãe o primeiro objeto de seu amor, vincula-se tudo
aquilo que, sob o nome de complexo de Édipo, veio a ter tanta importância na
explicação psicanalítica das neuroses...”[xiv]
Podemos marcar que até o momento da XXIII conferência introdutória sobre
psicanálise, embora não tenha situado a relação dos sintomas com a castração,
Freud nos fala que esta aparece freqüentemente na análise dos pacientes. Essa
observação já indica de onde Freud, finalmente, extrai o que ele concebe como a
experiência comum a todos os seres humanos, e que está na base da formação dos
sintomas.
O sintoma: Édipo e castração
Em 1926, o artigo “Inibição, sintoma e ansiedade” retoma os conceitos de
recalque, ego e pulsão, e os articula de nova forma com o afeto de angústia.
Porém, o que mais destacamos nesse artigo é a importância dada a castração como
estando no princípio da formação dos sintomas. Vejamos melhor cada um desses
itens. Nesse artigo encontramos a seguinte definição sobre sintoma: “um sintoma
é um sinal e um substituto de uma satisfação pulsional que permaneceu em estado
jacente; é uma conseqüência do processo do recalque”[xv].
Além disso, Freud acrescenta que é a partir do ego que o recalque se processa
devido à ordem do superego, o qual se recusa a associar-se com a catexia
pulsional do id. A relação do ego e do superego será abordada mais adiante,
quando for discutido o complexo de Édipo.
Freud faz equivaler o recalque a uma tentativa de fuga,
descrevendo que a primeira coisa a ser feita é uma retirada da catexia de
percepção do objeto perigoso, tornando-o impossível. A catexia retirada é usada
com o objetivo de liberar o desprazer, a angústia. Daí, Freud conclui que o ego
é a sede real da angústia, sendo esta reproduzida “como um estado afetivo de
conformidade com uma imagem mnêmica já existente.”[xvi]
Freud postula que a pulsão é sempre satisfeita de um jeito
ou de outro. O recalque produz um substituto, porém esse não é reconhecível
como satisfatório. “Ao rebaixar, assim, um processo de satisfação a um sintoma,
o recalque exibe sua força sob outro aspecto.”[xvii]
O processo substitutivo é impedido, pois o ego está atuando sob a influência da
realidade externa e, portanto, o impede de exercer qualquer efeito sobre aquela
realidade. O ego busca evitar o desprazer e se esforça pelo prazer; reconhece
que o sintoma veio para ficar, e o que resta é tirar o máximo possível da
situação de bom grado. Portanto, o
ego comporta-se como se nada tivesse a ver com os sintomas.
O sintoma é o verdadeiro
substituto e derivativo do impulso recalcado, e ele continuamente renova suas
exigências de satisfação e assim obriga o ego, por sua vez, a dar o sinal de
desprazer e a colocar-se em uma posição de defesa. Essa relação entre ego e sintoma
se esclarece melhor quando comparada com a relação entre o ego e a inibição,
que Freud se empenha em diferenciar do sintoma. Para Freud, a inibição é nada
mais nada menos que uma redução de uma determinada função do ego.
O sintoma estaria mais além da inibição, na medida em que,
segundo Freud, uma inibição se submeta a uma alteração inusitada de uma função.
Por exemplo: deixar de se locomover, de se alimentar, etc. Ao contrário da
inibição, que é uma restrição de uma função do ego, o sintoma se situa fora,
como um verdadeiro corpo estranho ao ego.
Mas são as relações entre angústia, castração e sintoma o que será
destacado no artigo “Inibição, sintoma e ansiedade”. Neste artigo encontra-se a
modificação da teoria da angústia. É a angústia o motor do recalque, não sendo
o recalque o que produz a angústia, como Freud tinha pensado anteriormente. É
essa afirmação que constitui a virada de sua teoria. “É sempre a atitude de
angústia do ego que é a coisa primária e que põe em movimento o recalque”[xviii].
Por isso, a angústia deve ser entendida como um sinal emitido pelo ego para que
algo seja feito e impedido. Freud esclarece melhor isso ao retomar o caso de
fobia do Little Hans. Vejamos:
“Mas o afeto de angústia,
que era a essência da fobia, proveio, não do processo do recalque, não das
catexias libidinais dos impulsos recalcados, mas do próprio agente
repressor. A angústia pertencente às
fobias a animais era um medo não transformado de castração. Era portanto, um
medo realístico, o medo de um perigo que era realmente iminente ou que era
julgado real. Foi a angústia que produziu o recalque e não, como eu
anteriormente acreditava, o recalque que produziu a angústia.”[xix]
A angústia como sinal está ligada ao recalque propriamente dito de acordo com
pensamento freudiano.
Enfim, os sintomas são criados a fim de evitar uma situação de perigo, a
qual Freud diz ser a castração ou algo remontável à mesma. O ego anuncia a
castração através do sinal da angústia. A castração remete uma reação a uma
perda, uma separação. Freud afirma que “seria mais verdadeiro dizer que se
criam sintomas a fim de evitar uma situação de perigo cuja presença foi
assinalada pela geração de angústia.”[xx] Como foi citado acima, essa situação de
perigo é a castração.
Cabe agora examinar como Freud sempre defendeu o fato de a neurose estar
assentada na sexualidade infantil. Como relacionar castração e complexo de
Édipo na forma de complexo nuclear das neuroses?
No texto “Bate-se numa criança”,
de 1919, Freud assinala a relação entre o complexo de Édipo e o sintoma com
suas próprias palavras: “a sexualidade infantil, que é mantida sob recalque,
atua como principal força motivadora na formação dos sintomas; e a parte
essencial, o complexo de Édipo, é o complexo nuclear das neuroses.”[xxi]
Em 1924, no artigo “A dissolução do complexo de Édipo”, Freud diz que a
ameaça de castração é o que ocasiona a destruição do complexo de Édipo. Sua
conclusão sobre o recalque é a de que a força motora deste é o complexo de
castração, e as tendências desviadas são do complexo de Édipo.
Freud tomou emprestado o falo, símbolo dos
mistérios antigos, para dar conta da crise da sexuação que a criança atravessa
no complexo de Édipo. Ele enfatiza que se trata da “primazia do falo” e não da
“primazia genital”, como mencionara anteriormente.
A descoberta da falta do pênis materno é associada pela criança como
sendo resultado da castração. A criança depara-se, então, “com a tarefa de
chegar a um acordo com a castração em relação a si própria.”[xxii]
Assim, o complexo de castração está intimamente
correlacionado com o complexo de Édipo em ambos os sexos, embora em momentos
diferentes. O complexo de castração assume papel fundamental na dissolução do
complexo de Édipo, determinando a renúncia da criança ao objeto incestuoso. Nas
meninas, o complexo de castração apresenta-se, desde o início, incentivando a
feminilidade, transferindo investimentos pulsionais da figura materna para a
figura paterna. Mais tarde, após a tentativa frustrada de obter uma compensação
através da figura paterna, a menina busca uma equivalência simbólica do pênis
em um filho. O desejo de um bebê ocupa o lugar do desejo de um pênis. Desse
modo, o complexo de Édipo chega em seu último estágio com a tentativa de dar à
luz um filho com o pai, desejo este mantido por muito tempo, o que faz com que
a mãe torne-se o objeto de seu ciúme. Já os meninos, em conseqüência de estarem
apaixonados pela mãe, temem ser punidos pela castração. A possibilidade da
falta do pênis nos meninos é vista como uma ameaça paterna, que promove a renúncia
ao objeto incestuoso por parte destes. Caso contrário o pai aparece como aquele
que vai puni-lo com a castração. Em ambos os sexos a catexia objetal referida à
mãe é abandonada com a destruição do complexo Edipiano. Porém, em seu lugar
podem ocorrer dois fatos: uma identificação com a mãe ou uma intensa
identificação com o pai. Para Freud, nos meninos, o último resultado é visto
como o mais normal, porque permite que a relação afetuosa com a mãe seja de
algum modo mantida. De maneira análoga, nas meninas, a identificação mais
intensa com a figura da mãe constituirá seu caráter feminino. A conclusão de
Freud é que a castração conduz ao declínio do Édipo nos meninos, enquanto nas
meninas, ao contrário, a castração as introduz no complexo.
O declínio do complexo de Édipo porta a formação do
superego, isto é, o superego surge como herdeiro deste complexo. Iremos
estabelecer a relação existente entre o superego e o complexo Edipiano.
Podemos
destacar na XXXI conferência introdutória sobre psicanálise, “A dessecação da
personalidade psíquica” o escrito de Freud a respeito da relação entre o
superego e o complexo de Édipo. Acompanhemos o que situa Freud: “a instalação
do superego pode ser classificada como exemplo bem sucedido de identificação
parental. O fato que fala decisivamente a favor deste ponto de vista é que essa
nova criação de uma instância superior dentro do ego está intimamente ligada ao
destino do complexo de Édipo, de modo que o superego surge como o herdeiro
dessa vinculação afetiva tão importante para a infância.”[xxiii]
Freud menciona que o superego mantém o caráter
paterno. Ele situa que na origem do superego encontra-se a identificação com a
figura paterna, considerando esta identificação como a mais importante na vida
do sujeito. Trata-se de uma instância que se instala através de uma
identificação sucedida com a figura do pai. O superego tem a função de punir e
proibir as satisfações provenientes do id.
Em 1923, no artigo “O ego e o id”, Freud assinala o aspecto duplo do
superego em sua relação com o ego: "O superego, contudo não é simplesmente
resíduo das primeiras escolhas objetais do id; ele também representa uma
formação enérgica contra essas escolhas. A sua relação com o ego não se exaure
com o preceito: você deveria ser assim (como o seu pai). Ela também compreende
a proibição: você não pode ser assim (como o seu pai), isto é, você não pode
fazer tudo o que ele faz; certas coisas são prerrogativas dele.”[xxiv]
Buscando esclarecer esta face dupla do superego em
relação ao ego, Freud a relaciona ao fato de o ego empreender o recalque do
complexo Edipiano. O pai aparece como obstáculo à realização dos desejos
incestuosos, portanto leva o ego infantil a se fortalecer para executar o
recalque “erguendo esse mesmo obstáculo dentro de si próprio.”[xxv]
Assim, a função paterna implica numa posição do sujeito em relação ao complexo
de Édipo e de castração.
Freud formula a hipótese de que o superego
“descreve uma relação estrutural” no aparelho psíquico, contudo ele não aborda
melhor essa questão nos artigos revistos neste trabalho.
Voltando ao artigo “Inibição, sintoma e ansiedade”, poder-se-ia pensar
que o questionamento de Freud em 1916, na XVII conferência introdutória sobre
psicanálise, “o sentido dos sintomas”, sobre a possibilidade de os sintomas
remontarem a uma experiência comum a todos os seres humanos, poderia estar
sendo respondido no artigo “Inibição, sintoma e ansiedade”, se considerarmos
que esta experiência é o complexo de castração.
Na XVII conferência introdutória sobre psicanálise, vimos que os
sintomas têm um sentido e, se conectam com a vida dos pacientes. Inicialmente,
Freud formula que após os pacientes descobrirem o sentido de seus sintomas, os
mesmos desapareciam. Porém, mais tarde, ele observa na clínica que os sintomas
se repetem, o que o levou a pensar no “Além do princípio de prazer”. Pode-se
mencionar a citação de Freud no seu artigo “Além do princípio do prazer”, onde
ele evoca a defasagem existente entre a satisfação obtida e a satisfação
esperada, incidindo à repetição. Do mesmo modo, pode-se evocar seu artigo de
1911, “Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental”, no qual
Freud descreve como mítica a satisfação visada em reencontrar o objeto. De
fato, o objeto está perdido, e por ser perdido é capaz de suscitar o desejo do
reencontro. É a impossibilidade de ser alcançado que faz com que ele se torne a
mola propulsora desta busca insaciável de satisfação.
No artigo “Além do princípio do prazer”, encontramos a descrição da
brincadeira de uma criança, onde o menino usava um carretel amarrado por um
cordão, fazendo-o desaparecer e reaparecer, tornando-se assim um jogo
repetitivo. O prazer maior era ligado ao segundo momento, ou seja, ao retorno.
A interpretação do jogo, para Freud, refere-se à renúncia pulsional que a
criança realizou ao deixar sua mãe ir embora sem reclamar. O menino efetuava o
desaparecimento e a volta do brinquedo como um modo de compensação. Freud marca que a repetição que ocorria na
brincadeira só foi possível de se realizar porque ela trazia a produção de
prazer de outro tipo.
Encontramos em Freud uma citação importante relativa à questão da
repetição: “A pulsão recalcada nunca deixa de esforçar-se em busca de umas
satisfações completas, que consistiria na repetição de uma experiência primária
de satisfação(...). O prazer da satisfação que é exigida e a que é realmente
conseguida, é que fornece o fator impulsionador ...”[xxvi]
dessa busca constante. Logo, podemos concluir que os sintomas se repetem na
clínica, pois a satisfação obtida não coincide com a satisfação visada.
Sintoma e transferência
Ao mesmo tempo em que a experiência psicanalítica pretende tratar o
sintoma, é esta mesma experiência que o cria e o instala como sintoma
analítico. Nesta, perspectiva encontramos a articulação do sintoma com a
transferência. O sintoma analítico é transferencial e a transferência, por sua
vez, é o que permite sua instauração. Como diz Freud: “Nossa experiência
demonstrou que a relação da transferência, que se estabelece com o pela seleção
do que é obscuro e desconhecido na própria história do paciente. Nisto, vemos
uma escolha inconsciente que já é dirigida àquele analista. Portanto, o
sintoma, para a psicanálise, não é aquilo que permite reunir e identificar
tipos de sofrimentos comuns a muitas pessoas. O sintoma psicanalítico é o que
um sujeito elege como sua questão, própria e singular em seu endereçamento
transferencial ao analista”.
Na XVII conferência introdutória sobre psicanálise,
“A transferência”, Freud escreve:
“Pode-se dizer que nossa convicção da importância dos sintomas como satisfações
substitutivas da libido teve sua confirmação final só após a inclusão da
transferência.”. Os sintomas, assim como a transferência, ocorrem como
resultado do retorno do recalcado. Enfim, a libido passa do sintoma à
transferência, da transferência à cura e a cura torna-se produtora de
satisfação.
Embora a análise trate o sintoma, isto não quer
dizer que este seja abolido. O sintoma é movido pelo desejo, assim como o
desejo move o inconsciente. Podemos nos perguntar: o que se espera de uma
análise em relação ao sintoma? Que o sintoma de entrada seja transformado e que
permita, ao final, uma nova articulação com o desejo contido nele, desejo este
inconsciente, que se fazia representar pelo sintoma de maneira deformada. A
experiência analítica descobre que a supressão do sintoma não implica sua cura,
ao contrário, pode supor um agravamento do mal estar do sujeito, o que Freud
chamou de reação terapêutica negativa. O mal estar implicado no sintoma é
ignorado pelo o discurso da ciência, na medida em que classifica os sintomas
sem levar em consideração a dimensão subjetiva particular do sujeito. A
psicanálise espera que o sujeito apreenda algo do ser do seu sintoma, para
articulá-lo de outro modo. Neste sentido, é preciso que o sujeito adquira um
“saber fazer” com o seu sintoma.
[i] Freud, S. “Metapsicologia” (1915). Em: Obras completas. Rio de Janeiro:
Imago, 1996, Vol. XIV, p.158.
[ii] Idem, p.189.
[iii] Idem, p.161.
[iv] Idem, p.161.
[v] Freud, S. “O sentido dos sintomas” (1916). Em: Obras completas. Rio de
Janeiro: Imago, 1996, Vol. XVI, p.269.
[vi] Freud, S. “Fixação em traumas – O inconsciente” (1916). Em: Obras
completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996, Vol. XVI, p.287.
[vii] Freud, S. “Os caminhos da formação dos sintomas” (1916). Em: Obras
completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996, Vol. XVI, p.367.
[viii] Idem, p.375.
[ix] Freud, S. “Rascunho M” (1987). Em: Obras completas. Rio de Janeiro:
Imago, 1996, Vol .I, p.301.
[x] Freud, S. “Os caminhos da formação dos sintomas” (1916). Em: Obras
completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996, Vol. XVI, p.368.
[xi] Idem, p.368.
[xii] Freud, S. “O estado neurótico comum” (1916). Em: Obras completas. Rio de
Janeiro: Imago, 1996, Vol. XVI, p.383.
[xiii] Freud, S. “Rascunho N” (1987). Em: Obras completas. Rio de Janeiro:
Imago, 1996, Vol.I, p.307.
[xiv]Freud, S. “O desenvolvimento da libido e as
organizações sexuais” (1916). Em: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996,
Vol. XVI, p.333.
[xv] Freud, S. Inibição, sintoma e ansiedade”
(1926). Em: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996, Vol. XX, p.95.
[xvi] Idem, p.97.
[xvii] Idem, p.98.
[xviii] Idem, p.111.
[xix] Idem, p.111.
[xx] Idem, p.142.
[xxi] Freud, S. “Uma criança é espancada: uma contribuição ao estudo da origem
das perversões sexuais” (1919). Em: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago,
1996, Vol. XVII, p.218.
[xxii] Freud, S. “A organização genital infantil” (1923). Em: Obras completas.
Rio de Janeiro: Imago, 1996, Vol. XIX, p.159.
[xxiii] Freud, S. “Novas conferências introdutórias sobre a psicanálise” (1933).
Em: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996, Vol. XXII, p.69.
[xxiv] Freud, S. “O ego e o id” (1923). Em: Obras completas. Rio de Janeiro:
Imago, 1996, Vol. XIX, p.47.
[xxv] Idem, p.47.
[xxvi] Freud, S. “Além do princípio do prazer” (1920). Em: Obras completas. Rio
de Janeiro: Imago, 1996, Vol. XVIII, p.53.
