A prática clínica nos novos dispositivos: fundamentos e atividades.



"Pássaro flutuante" da artista
Alejandra Popa 

A diferença das terapias breves, o tratamento  de  
curta- duração se propõe a realização de um ciclo.

Jacques-Alain Miller.
Em: Conversação em Barcelona sobre os Efeitos terapêuticos rápidos.


A experiência analítica permite a um sujeito que sofre, interrogar o que deseja seu inconsciente. Nessa experiência trata-se de elaborar um saber sobre o que determina este sofrimento. A cura, como o assinala Freud, vem por acréscimo. Na Psicanálise pura, analisante e analista, em secreto, no privado do consultório de um psicanalista levam a cabo esta experiência. A Psicanálise Aplicada também supõe um analista e um analisante. Ela implica que há um psicanalista e um sujeito, o paciente. Porém, neste caso pode haver um terceiro elemento neste dispositivo, que em geral se dá sob a forma de uma instituição: um hospital, um posto de saúde ou um ambulatório. O terceiro elemento também pode se presentificar sob a forma de medicamentos, quando este se faz necessário à condição clínica do paciente.
A Psicanálise Aplicada pode-se praticar em alguns casos, no consultório do analista, no caso em que a demanda seja terapêutica, mesmo que essa demanda ainda não seja uma demanda de análise, refere-se a um sofrimento subjetivo do sujeito. Na Psicanálise Aplicada o sujeito é acolhido como sujeito do inconsciente, sujeito desejante e não como objeto do discurso médico ou de qualquer outro enquadre educativo ou normativo. Quando falamos de Psicanálise Aplicada de Orientação Lacaniana - aplicada à terapêutica[1], falamos de uma Psicanálise que se funda sobre os conceitos e os princípios da Psicanálise Pura que esclarecem a estrutura em cada caso e orientam a prática com cada paciente. 
A Psicanálise Aplicada se situa no campo da Psicanálise. Todo o resto, quer dizer, todas as psicoterapias, não tem nada a ver como a psicanálise, porque a noção de psicoterapia, nunca fez parte da psicanálise[2]. Além disso, as psicoterapias visam uma adequação às normas da sociedade, mediante técnicas de sugestão, de educação, de persuasão, de uma manipulação efetiva, mediante, por exemplo, exercícios corporais. Técnicas destinadas a corrigir o caráter do sujeito, ou bem, a dar vazão ao gozo.
As psicoterapias não participam do discurso psicanalítico e sim do discurso do mestre, onde quem está no lugar no agente do discurso é justamente o significante mestre. No discurso do analista, é o analista que está no lugar de objeto e interpela o sujeito na sua divisão. A Psicanálise Aplicada busca a produção de um efeito terapêutico. Estes se endereçam a Psicanálise para fazê-la avançar, para torná-la cada vez mais operativa na vida contemporânea, para atualizar uma temporalidade que convenha ao que Lacan chegou a desenvolver no seu “último ensino”. Onde nos demonstra um novo enfoque dos três registros, Imaginário, Simbólico e Real[3]. Um efeito terapêutico não responde por tanto a uma mudança de sentido, ele responde mais bem a uma mutação subjetiva que supõe sempre uma certa perda de gozo.

Os efeitos terapêuticos rápidos e a teoria dos ciclos
Desse modo os efeitos terapêuticos rápidos são os efeitos que podemos obter dentro do que Jacques-Alain Miller chamou de “ciclo”, e que chamamos de “tratamento de - curta - duração” para diferenciar estes, dos chamados de “pedaços (tranches) de análise”. O conceito de “ciclo” parece mais apropriado ao conceito de uma psicanálise como terminável, uma psicanálise com fim. Assim, se partimos do sintoma como envoltório formal da pulsão, como o que muda da pulsão, se tratará então de obter de um “tratamento - de - curta duração”, o significante do “ponto de basta” que dará ao sujeito um novo ponto de enlaçamento dos três registros. A diferença das terapias breves, o tratamento  de  curta- duração se propõe a realização de um ciclo.[4]

Para isso é necessário levar em conta a conceitualização de Lacan do sintoma freudiano, quando ele vai se concentrar no que tem de real o sintoma, o que chamamos de real do sintoma.  Em um ciclo se espera que se produzam efeitos terapêuticos, os que supõem uma subjetivação frente ao sintoma, que implica nessa perda de gozo de que já falamos. O Centro CLAC se insere na experiência desse primeiro ciclo e se interroga em que medida é possível haver um efeito terapêutico rápido no decorrer desse ciclo, levando em conta as premissas do tratamento gratuito e de tempo limitado.  A nossa pesquisa tenta verificar nos casos clínicos, que um primeiro ciclo ocorreu e que as intervenções do analista contribuíram para isso.

O atendimento: as Primeiras Consultas[5]
O Atendimento no Centro CLAC se divide em dois momentos, a Primeira Consulta, e o Tratamento. Consideramos que na Primeira Consulta se trata principalmente de escutar a queixa do paciente, avaliar a necessidade de um tratamento e isolar os motivos pelos quais o Centro seria um lugar adequado para o paciente ser acolhido. Uma equipe de praticantes realiza a Primeira Consulta. Logo o paciente é encaminhado para um outro praticante, que dará inicio ao tratamento, ou ele é encaminhado para uma instituição que possa acolhê-lo.  A Primeira Consulta deverá realizar com o maior êxito possível o encaminhamento das demandas, de maneira a obter o máximo de segurança no atendimento ou, em alguns casos, sua derivação a outros serviços de saúde na cidade.   Questões que nos interrogamos neste caso nas Primeiras
Consultas:
- Qual a diferencia de um tratamento individual, mesmo que envolva vários membros de uma mesma família e um tratamento em grupo?
- Quais pontos da nossa casuística e outros conceitos da pratica clinica interessam especialmente e deveriam ser discutidos quando se trata de uma família?               

A perspectiva do sintoma e sua localização do sintoma
O sintoma é uma formação do inconsciente, porém não como as outras. Ele, como todas as demais, é o que não anda, o que falha. Porém o sintoma seria o único real semântico. O sintoma é real ao menos porque ele não é dócil a todo sentido. No registro do real ele conserva um sentido.  Ele seria o único verdadeiramente real, desse modo ele está no enlaçamento entre o Real e o Simbólico. (Miller, 1987)

Um sujeito pode escolher aí se fixar. O sintoma aponta a singularidade do sujeito, se ele consente a dar outra coisa além de sentido, é o reencontro de suas palavras com seu corpo que então advém.  Na pratica que se realiza no CLAC não se trata de pedaços, de fatias de análise, (tranche) que Freud considerava dentro de uma cura interminável, nem de um benefício terapêutico efêmero, mas de um ciclo que contraria o curto-circuito da fantasia (S/<>a) que encobre um gozo. Porque o que se dá como efeito terapêutico rápido supõe uma perda de gozo.

A ênfase sobre a efetividade do tratamento de tempo limitado implica que o acento não seja colocado sempre sobre a duração precisa em número de sessões. Não se trata de um dispositivo adaptado que fará das terapias breves ou focais uma prática desvalorizada da Psicanálise. 

Estamos sem no campo da Psicanálise aplicada à terapêutica. Nela o efeito terapêutico é o resultado de uma pratica psicanalítica que se diferencia da prática de uma psicoterapia.  Ele é o resultado do desejo do analista, que vai da palavra à pulsão, do Outro ao isso. Não é o produto do discurso do mestre - discurso próprio às psicoterapias - nem o resultado de uma identificação. Um efeito terapêutico, pois, não responde a uma mudança de sentido. Os efeitos terapêuticos em psicanálise se distinguem dos “efeitos de verdade”, próprios ao atravessamento da fantasia fundamental com os quais o passe realiza sua construção.

As intervenções do analista: Interpretação e o ato analítico fora do standard 
O ato analítico e a transferência são duas noções da Psicanálise pura especialmente presentes na prática clínica dos Centros de Atendimento como o Centro CLAC, onde se realiza um tratamento de curta duração. A clínica muda no último ensino de Lacan e os efeitos da experiência psicanalítica com as psicoses não deixa intacto o acesso à clínica das neuroses.

 Isto implica que examinemos o que há de invariável no tratamento no que diz respeito aos dois pontos cruciais na prática clinica da psicanálise aplicada:

- Interpretação e o ato analítico
Dois conceitos da psicanálise que são fundamentais nos tratamentos de curta duração.  A intervenção do analista tem por finalidade a separação, significante e sentido, quando é possível isolar o sintoma dos significantes “sem sentido” presos a ele. Estas intervenções pertencem ao campo da Psicanálise Aplicada à terapêutica, à Psicanálise aplicada ao sintoma. Mas este efeito de “cura” próprio do efeito terapêutico não significa que há um fim de análise, pois este só se dá no passe, se situarmos com Lacan o passe como uma “cura radical”.

- A transferência e o fim do tratamento: os encaminhamentos possíveis
No Centro CLAC são acolhidos sujeitos que se sentem infelizes pelas exigências do mundo contemporâneo, um analista se propõe como um “parceiro inédito” - torna possível o “encontro com um analista” - que ajudará o sujeito a encontrar um caminho para poder sair do impasse a que se vê confrontado, e desse modo inventar uma solução que modere sua angustia. 
No tratamento de curta duração se trata de, após o estabelecimento da transferência, localizar o sintoma. Tratar o sintoma na transferência que cada sujeito inaugura com um analista, na particular situação de um Centro que oferece tratamento de curta duração, para poder alcançar a produção de efeitos terapêuticos. Ao mesmo tempo este tratamento permite a esta pratica da psicanálise escapar do assistencialismo.

A transferência é o pivô do tratamento, sua condição na suposição de um saber que é outorgado ao analista que torna possível este endereçamento ao Outro social. Falar do encontro com o analista, a partir do último ensino de Lacan, é pensar que o analista vem a ocupar o lugar central no dispositivo e nas soluções para as psicanálises possíveis. O encontro com o analista deve ser pensado como conseqüência da proposta lacaniana da desregularização do standard, de modo a tornar possível captar o particular do gozo do sintoma de cada sujeito. A prática lacaniana leva, a quem nela se aventura, à uma experiência subjetiva, uma ‘experiência do real’ que certamente difere da experiência da mediunidade e das apostas no mercado.  Para que o encontro com o analista seja possível devemos levar em conta os novos elementos introduzidos na psicanálise pela prática lacaniana: a necessidade da formulação da demanda do sujeito feita a um analista, a verificação da autenticidade do desejo nela implícito e a formalização do sintoma como “sintoma analítico”, o que significará para o sujeito ir ao encontro do objeto.  Por fim, o sujeito está convocado a, na transferência, produzir uma subjetivação da sua queixa, de seu sofrimento psíquico, no espaço de tempo que lhe é oferecido, do tempo em que se dará o “encontro com um analista”. 

O Funcionamento
O Centro CLAC [Centro Lacaniano de Atendimento e Consulta] se inspira na convocação de Jacques – Alain Miller de por em marcha dispositivos de Psicanálise de Aplicada de Orientação Lacaniana em 2002. O Projeto inspirado no CPCT[6] criado em Paris, foi elaborado no decorrer do ano de 2003, por uma comissão ad doc criada pelo conselho da Seção Rio.  Nele se encontram as bases de uma pratica que se inicia em outubro de 2004. Sua inserção no Outro social vem sendo sustentada e ampliada. O Centro CLAC atendeu a comunidade da favela Santa Marta, e hoje a população de outras comunidades da cidade do Rio de Janeiro. O atendimento se divide em Consultas, e Tratamento. Os que participam da chegada do sujeito ao CLAC, interagem com um Outro social. As primeiras consultas acontecem no lugar em que está em jogo o Outro, familiar, social.  Desde esse lugar nos interrogamos como acolhemos essas demandas, quais são nossas exigências? Como, mais alem do encontro com o sujeito, podemos operar com esse Outro? Qual é a distancia que podemos introduzir que nos vai permitir ir contra esse sentido natural? Como podemos “colaborar sem ali perder nossa alma?”   O atendimento no CLAC é gratuito, de tempo limitado há quatro meses (16 sessões), podendo ser renovado somente uma vez.

ATIVIDADES
A) As Reuniões Clínicas: discutem e avaliam os casos em atendimento e realizam a pesquisa. A supervisão está a cargo de uma lista de supervisores, que praticam no Centro.
A Reunião Clínica é dedicada a Casuísta:  ponto central de prática clinica no Centro CLAC consiste na elaboração de uma “casuística” definida a partir de três pontos: a constituição da demanda, o diagnóstico e a direção do tratamento. Constituição da demanda: ela é da ordem da subjetivação, se espera que o paciente subjetive sua queixa e realize uma implicação subjetiva. A casuística compreende:
 )  O Diagnóstico;
2º ) A Demanda;
3º ) A Direção do Tratamento:
 - um tratamento de curta duração exige um diagnóstico que já seja elaborado na Primeira Consulta e corroborado pelo praticante que conduzirá o tratamento. Direção do tratamento: é um tema importante na pratica lacaniana, um tema significativo do Lacan clássico. O praticante deverá postular para si mesmo e levar as reuniões clínicas e a supervisão, como pensa conduzir o caso dentro do dispositivo do Centro;
4º ) A Construção do Caso:
 - a construção do caso segue a pesquisa que há alguns anos realizamos em torno da elaboração do relato clínico em psicanálise na orientação lacaniana. A escolha do caso e sua construção são sempre realizadas de forma conjunta. Temos um cuidado muito especial na elaboração e construção dos casos. Eles são discutidos nas Reuniões clínicas e logo elaborados num trabalho conjunto.

B) A Pesquisa: “Os efeitos terapêuticos rápidos” na psicanálise aplicada foram o objeto da pesquisa de 2004 a 2007.  “As psicoses ordinárias” será o tema da pesquisa para 2008-2010.  Os resultados da experiência e pesquisa incluem: casos apresentados e debatidos, em nossas Reuniões Clínicas, Conversações clínicas, em Jornadas locais, em Encontros nacionais e internacionais. Nesse tempo limitado o tratamento de – curta - duração, visa o acolhimento e alivio do sofrimento psíquico e a obtenção de “efeitos terapêuticos rápidos”,  maneira de praticarmos a psicanálise “em contado direto com o social” [7]. Nessa mesma direção vai a escolha do novo tema da pesquisa.

C) O Ateliê de Psicanálise Aplicada: Seu objetivo imediato é a preparação para o atendimento no Centro. A duração é de dos anos, dedicados ao estudo e pesquisa sobre a Psicanálise Aplicada, seus fundamentos, seus princípios, sua pratica.  Os participantes podem ser convidados a realizar sua pratica clínica no Centro CLAC.


Equipe CLAC
Centro Lacaniano de Atendimentos e Consultas.

 Rio de Janeiro, setembro de 2008.



[1][1] Miller, J. - A. Psychanalise pura, psychanalyse appliqué & psychotérapie. In: La cause reudiene nº 48,pp.7- 8.
[2] Idem, p.10.
[3] Lacan, J. Seminário XXII, Le Sinthome. Edtions du Seuil. Paris, 2004.
[4] Miller, J. - A. (2004) Conversação em Barcelona sobre os Efeitos terapêuticos rápidos. Paidós, Buenos Aires, 2004.
[5] Texto apresentado na Reunião Clinica do Centro CLAC, de 22 de maio de 2007.
[6] CPCT - Centro Psicanalítico de Consultas e Tratamento.
[7] Expressão cunhada por Judith Miller intitulando o Encontro Internacional do Campo Freudiano, PIPPOL 3. Paris, 2007.