A casuística lacaniana na Psicanálise Aplicada


Como construir um relato de caso na prática lacaniana? Há crise de relato de caso? O último ensino de Lacan nos mostra algum caminho novo nessa direção? 

A casuística proposta por Lacan, no Anexo à “Ata de Fundação da Escola Freudiana de Paris”, dedica-se justamente a este estudo rigoroso e crítico da construção do relato de um caso clínico - seja do analista relatando o caso de seu paciente em análise ou do analista relatando seu caso como sujeito em análise. Trata-se sempre do analista e de seu ser como falta-a-ser e, portanto, de sua causa. [1] A leitura do texto de Eric Laurent “O que está em jogo nas jornadas”, publicado no Correio nº 38 de abril de 2002 [2], aponta uma dificuldade que vinha nos fazendo pensar muito e sobre a qual gostaríamos de trabalhar. Refere-se ao que o autor nomeou de crise do relato do caso em Psicanálise. Nas palavras de Laurent, “a crise do relato do caso em psicanálise está baseada no fato de que não mais se saiba muito bem como redigi-lo e a variedade no modo de narrativa admitida, designa um certo mal-estar. O relato do caso aparenta se organizar em torno de um certo número de falsas oposições e falsos dilemas. Citemos desordenadamente, o quantitativo contra o qualitativo, a vinheta contra o caso desenvolvido, a monografia exaustiva, as grandes séries contra o isolamento de variáveis pertinentes ao caso isolado”. [3]

A nossa proposta, em vista disso, consiste em estudar o modo pelo qual a prática lacaniana se orienta na transmissão daquilo que se passa nos consultórios. De acordo com Eric Laurent, é com base "na leitura que faz dos casos de Freud que Lacan ‘eleva o caso ao paradigma’, ao nível de ‘exemplo que mostra’ as propriedades formais, no sentido amplo das manifestações do inconsciente freudiano”. [4] A partir desse presuposto, tomamos como eixo de trabalho algumas questões fundamentais: 

1- a construção em Freud e a construção em Lacan;
2- construção e interpretação;
3- relato de caso e passe;
4- construção do caso clínico e o desejo do analista. 

As finalidades do relato de um caso clínico, essa é a nossa proposta, fundamenta-se em dar ao objeto seu estatuto de real e tentar definir os pontos cruciais sob a análise lacaniana de um caso. Ao longo do ensino de Lacan, a noção de objeto a vai ganhando diferentes valores. De modo que, os objetos podem emergir como extrações corporais, ou bem eles se impõem como consistência lógica. Sendo assim, primeiramente, devemos considerar o objeto em sua referência corporal, em sua pluralidade. E, posteriormente, em sua definição como única consistência lógica, considerando-o como objeto singular.

Equipe CLAC
Centro Lacaniano de Atendimento e Consultas.



[1] Realizamos esta proposta de discussão no ano de 2003 através dos relatos de casos clínicos publicados em Revistas como Opção Lacaniana, Ornicar? Digital, Latusa, Revista da EBP-RJ e em outras publicações do Campo freudiano assim como em casos clínicos dos participantes do seminário.
[2] Laurent, E. “O que está em jogo nas jornadas”. Correio nº 38, Revista da EBP. Rio de Janeiro, abril de 2002, pp.10-18.
[3] Idem, p.12.
[4] Idem, p.13.